Rio Doce Terra

# Nico de Paula

LEMBRANDO-ME DE UM GRANDE RIODOCENSE

José Geraldo Drumond Cenachi

Havia uma serraria bem ao lado da casa onde eu fui criado. As toras de madeira que chegavam para serem descarregadas e desdobradas vinham da fazenda Catarina de Souza, que ficava bem distante. Até então, esta fazenda era ocupada por posseiros que abriram uma clareira na mata virgem de lá e passaram a explorar aquelas terras sem ao menos dar satisfação aos seus reais proprietários. Mantinham-se ali na base da violência e ameaçando os donos de morte caso aparecessem por lá.  A região era violenta e tudo era resolvido à bala. Para quem não era dessas paragens, contava-se que o líder local em uma conversa com um visitante no largo do arraial, a praça, apontou para uma dupla que passava e disse: - Já vai lá meu pai! O visitante perguntou: - Qual deles? O líder então sacou de seu revolver, atirou na direção da dupla e disse: - O que ficou de pé. Eu sempre considerei essa estória uma lenda, mas sei que casos semelhantes a este aconteciam por lá. Primeiro as pessoas matavam os desafetos e só depois conversavam. A curiosidade e o imaginário faziam proliferar esse tipo de estória, mas pouca gente ousava apurar a verdade sobre os fatos acontecidos; nem mesmo a polícia!  Ninguém queria provas sobre o quê se ouvia, pois o medo de ser assassinado era maior que a curiosidade. Não aguentando mais este estado de coisas, a Fazenda Catarina de Souza foi posta à venda.

 


NICO DE PAULA, um jovem destemido e com muita vontade de trabalhar acabou comprando a tal fazenda, mesmo sabendo o quê lhe esperava. Compleição física avantajada, cara fechada, temperamento forte, atirador famoso, de pouca conversa, tal como um trator no estilo de trabalhar, foi à luta, comprou e ocupou as terras sem muito alarde e com aparente facilidade. É claro que foi uma surpresa geral ter conseguido realizar essa façanha.  Essa atitude tornou-o uma pessoa temida por todos os malfeitores da região. Devido a ele ser firme, principalmente taciturno, surgiram então muitos boatos a respeito da sua façanha. É certo que a atitude de se fazer valer como o novo proprietário das terras não fora tomada a poder de flores.  Mas, ele conseguiu se estabelecer naquelas terras toda formada por matas virgens.  Creio ter havido muito exagero nessa estória, dos invejosos. Muitos dos casos pareciam enredos de filme de faroeste. As lendas geradas circulavam com frequência na sociedade de Rio Doce, mas ele nunca deu importância a elas. Não as confirmava, mas também não as desmentia.
Prosperou rapidamente e com muita dignidade. Nunca parava de trabalhar, quem quisesse conversar com ele tinha que acompanhá-lo no que estivesse fazendo. Todo dia ia para sua fazenda num caminhão que não tinha cabina e com arma em punho. Lá passava todo o dia num trabalho árduo. Certamente, vistoriando o desmatamento e passando em revista as atividades da fazenda que ia desde a agricultura até à pecuária. Não descuidava da parte humana de seus empregados. Todos eles tinham casa própria e eram tratados como seus filhos. Se alguém adoecia ele levava para dentro de sua casa em Rio Doce e os tratava. Todas as despesas com a saúde deles ficavam por sua conta. Na casa do Sô Nico seus empregados recebiam também a atenção de Dona Cota,sua esposa. Pequenininha, falava muito baixo, mas tinha um coração enorme. O casal não tinha filhos, mas adotara várias crianças para criar. Sô Nico teve uma filha fora do casamento que foi criada por sua esposa com o maior carinho.     

Sô Nico, homem de visão, fez daquelas terras improdutivas uma enorme fazenda toda mecanizada, raríssima, ninguém na região conhecia nem por ouvir falar. Com isso aumentou muito o número de empregados e também a fama de sua generosidade entre as pessoas da região. Sua casa em Rio Doce ficou pequena e ele resolveu construir uma bem maior para não ficar em falta com quem o procurasse. A casa construída tinha uma divisão interna como as de um hotel de pequena cidade. Meu avô, dono da casa em que morávamos, visitava pouco Rio Doce. Ao chegar foi logo notando que a casa havia sido construída na divisa com o lote de nossa casa. Vovô não gostou e o procurou para reclamar sobre essa irregularidade, achando que iria ter um problemão para resolvê-lo. Sô Nico não se fez de rogado.  Não resistiu e nem tentou convencer vovô a deixar a situação como se encontrava,já que estava tudo construído.

Simplesmente perguntou ao meu avô o que queria que fosse feito. Vovô ficou surpreso com a boa vontade do Sô Nico e sugeriu a ele que apenas trocasse as janelas comuns por basculantes. Sô Nico fez a modificação imediatamente. Era um homem que tinha o maior prazer em que todos ao seu redor ficassem bem. Não media sacrifícios para isso. Arrojado em seus projetos, muitas vezes não via que estava prejudicando terceiros, mas logo que percebia reparava os danos que causava e ainda gratificava as pessoas prejudicadas. Era um homem de uma generosidade ímpar e nunca convivi com outra pessoa igual. Levou para Rio Doce seu irmão Tatão, quem tinha três filhas, bem como mais duas sobrinhas que não haviam se casado. Nessa época ele construiu para esses parentes as melhores casas de Rio Doce, melhor mesmo que a dele próprio, e não deixava lhes faltar nada. Papai se beneficiou muito da generosidade dele. Papai, mesmo sem pedir e nem mesmo gostar de receber, estava sempre sendo ajudado por ele.  Em reconhecimento, meu pai ofereceu seu filho Antônio para ele apadrinhar.  Cece,sobrinha do Sô Nico, era minha madrinha. Por várias vezes ele quis que papai fosse o administrador da fazenda dele. Via que nosso sítio era pequeno demais para papai manter a família. Uma das últimas vezes em que ele fez novamente o convite, a titulo de convencimento, citou que seu administrador estava saindo porque após cinco anos trabalhando para ele, o administrador conseguiu comprar uma fazenda. Queria isso para papai também, mas mesmo assim papai não aceitou o convite.

Voltava da fazenda para casa em Rio Doce todo dia. Sempre com a casa cheia, atendia a todos e supervisionava as atividades da serraria. Em casa, enquanto atendia aos necessitados, trançava laços entre outras coisas mais.
Padre Mendes ficou muitos anos como Sacerdote de Rio Doce. Cumpridor de seus deveres, ninguém tinha o que reclamar desse padre. Papai que não era de bajular padre deu a Vanilda para ser batizada por ele. Era, no entanto, pessoa de temperamento forte e às vezes excedia em seu temperamento,o que levava muitas pessoas a se queixarem dele. Uma vez, mamãe, que não saía de casa devido a seus afazeres domésticos, estava lavando a porta da rua, o passeio em frente à casa, quando o padre passou montado em sua besta e chamou a atenção dela porque ela não ia à igreja. Mamãe ficou chateada e sempre repetia isso. Muito acostumado com o pessoal e já velho, passou a repetir com certa frequência fatos como este. Acho que por isso ele foi substituído pelo Padre João. Recém-formado, revolucionou Rio Doce. Criou um grupo de coroinhas que ninguém conhecia,curso para primeira comunhão, fundou várias congregações, celebrava missa nas capelas com frequência; um verdadeiro pastor! Participava da vida social da sociedade riodocense, jogava sinuca e até fumava etc. Para dar mais assistência aos que residiam na roça, ele comprou um jipe. Logo que fez esta aquisição saiu pela roça recolhendo donativos. Por ser um motorista sem experiência capotou o jipe numa curva quando fora apanhar, com o jipe em movimento,  algumas espigas de milho que caíram aos seus pés. Ao abaixar para colocá-las no devido lugar, o jipe saiu da estrada, capotou e pegou fogo. Ele se queimou todo. Foi uma comoção geral e a paróquia se mobilizou para que ele tivesse o melhor tratamento. Passados alguns meses, o pessoal que ajudava foi se afastando e o tratamento, caríssimo, foi mantido por Sô Nico até que o padre pudesse voltar a trabalhar. O tratamento durou em torno de dois anos. Ao contrario do que dava impressão este homem extremamente humano não se limitava apenas a parte material; todas as semanas ele visitava o Padre no hospital levando-lhe calor humano e a tranquilidade de que não iria lhe faltar nada.
Apenas um dos filhos que havia pegado para criar era homem. Rapaz afável, habilidoso, social, comunicativo, prestativo. Apesar disso, podia-se dizer que eram almas gêmeas tal a afinidade que nutriam. O lugar que um tirava o pé o outro botava o nariz tamanha a afinidade entre os dois. Este simpático rapaz funcionava como porta voz do Sô Nico. Como todos diziam, o quê faltava num sobrava no outro. Por muitos anos dirigia o Calango levando o Sô Nico para a mata, acompanhava-o lá e depois voltava com o caminhão cheio de toras. O movimento cresceu e Sô Nico comprou um caminhão novinho para o ele e o Zé Prego passou a dirigir o Calango. Mais que um empregado, o Zé Prego era amigo inseparável também. Sô Nico não era de mandar e nem vigiar, mas recompensava magnanimamente a todos que facilitassem sua vida nos empreendimentos que se propunha a realizar.
Nessa época, certamente para melhor servir, o Sô Nico tornou-se vereador por Rio Doce na Câmara de Ponte Nova. Até então nossos vereadores só cuidavam de política. Ele não só cuidou de fazer a Prefeitura cumprir com suas obrigações, como suprir as necessidades do município Rio Doce. Elegeu-se e reelegeu quantas vezes quis sem pedir um voto a alguém, simplesmente defendendo o interesse de Rio Doce na Câmara.

Por causa desse seu estilo, e que funcionava muito bem, eu vou contar a quem está lendo, um dos fatos mais tristes que já vivenciei. Na revolução de 66, Sô Nico, em plena atividade para que nossa comunidade não fosse prejudicada, partiu para Ponte Nova para resolver diversos problemas. Com muito mais razão naquele momento e como sempre,com muita pressa. Na entrada de Ponte Nova tinha uma barreira parando todos por causa do estado de coisas. Ele não quis esperar e mandou avançar. Mesmo sabendo quem ele era, os policiais usaram da violência. Conseguiram dominá-lo e ao seu filho depois de muito machucá-los. Levaram eles algemados e presos. Domingos Carvalho que há muito não frequentava Rio Doce,foi quem o socorreu. Em sala livre aguardando julgamento, percebeu o que estava acontecendo e resolveu o problema. Devido sua personalidade austera e honrada, nunca mais foi o mesmo. Esta foi uma das maiores injustiças que conheço e uma falha imperdoável das autoridades, como também  uma ingratidão do povo de Rio Doce,  que nada fez para levantar a moral de um homem tão ilibado e cumpridor de seus deveres.      
Eu tinha em torno de nove anos de idade e não conhecia soldado de polícia. Os problemas normalmente eram resolvidos pelo delegado, que era uma pessoa muito respeitada, mas já cansado pela idade avançada. Por isso começaram a surgir alguns problemas e decidiram requerer um policial para botar os arruaceiros no lugar deles. Levaram para lá um policial muito competente. Meia idade, muito sério, cara fechada, bigodudo, o que facilitava seu trabalho e todos estavam gostando muito dele. Pessoas que perturbavam a ordem ele mandava para casa e se não era obedecido, mandava o cara para o xilindró. Ia tudo muito bem até que um dia ele prendeu um empregado do Sô Nico. Empregado dele não dava trabalho para ninguém. Qualquer que fosse o problema era só chamá-lo que ele resolvia na hora. Não passava mão na cabeça de ninguém. Não tolerava mentiras e não aceitava justificativa nenhuma de ninguém. Errou, tinha-se que consertar o erro na hora. Mas, não admitia que ninguém corrigisse seus empregados. Eram como filhos para ele. O soldado não sabia disso e o homem quando ficou sabendo da atitude do policial, abriu um armário cheio de armas, chamou os empregados da serraria e desceu rua abaixo dizendo que iria tirar a canivete o bigode de quem prendeu seu empregado. Foi um alvoroço danado, o homem virara uma fera! Então correram à procura de seus amigos e avisaram para eles o quê estava acontecendo. Seus amigos pegaram o militar e o colocaram fora da cidade, imediatamente, depois de ele soltar o respectivo preso. Nunca mais esse militar voltou lá. 

Casos como esses que acabo de relatar aconteciam diariamente na vida desse ilustre riodocense. Sou testemunha da sua história e, sem medo de errar, posso garantir que Sô Nico era um homem firme nas ideias, mas, ao contrario do que se dizia dele,  não era arrogante. Talvez tímido, não sei, é certo que nunca foi submisso; hiperativo, nunca o vi parado nem mesmo sentado, ou em rodas batendo papo.  Contudo, não era irresponsável e muito menos impreciso; taciturno, levava as pessoas a acreditarem que não era contente; devido à acirrada  dedicação aos afazeres passava a impressão de que era um homem despreocupado ou desligado, mas, pelo contrário, cuidava de tudo que estava ao seu alcance; embora não parecesse, pois não era apegado, era amoroso; não parecia, mas era pacífico; muito disciplinado e rígido; flexível mas não tinha nada de frouxo; introspectivo, mas não era enclausurado, estava sempre presente onde houvesse gente trabalhando; determinado e corajoso sem contudo ser teimoso e muito menos agressivo. Ficava muito irritado e reagia com rispidez quando era usado na sua boa fé, mas tirando o caso do soldado que prendeu seu empregado, nunca o vi partir para qualquer tipo de violência ou se envolver em atos violentos.


Dentro da minha concepção, um homem perfeito. Pena que nunca falaram sobre a sua pessoa após sua morte. Se isso tivesse acontecido muitos o seguiriam e, certamente, Rio Doce e seus filhos seriam outros. Nunca recebeu honras, mas para pessoas como ele isso não importa; o que importa para quem teve o privilégio de conviver com ele é que as merecia de fato e de direito. Com este relato fico com a sensação de dever cumprido. Era meu herói e seu exemplo de austeridade ainda me surpreende até hoje.
Muito obrigado por tudo Sô Nico de Paula. Esse?  Um Homem de verdade!  Com H maiúsculo!!!!