Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 20/11/2017 às 16:11 horas                              

# A ventura da vida

À medida que a gente vai vivendo vai compreendendo o movimento interessante que é o viver de cada um de nós e também vai entendendo o presente que recebemos ao nascer, a indesejada das gentes. É custoso compreender que, ao nascermos, ganhamos junto a conseqüência da morte e isso mesmo por si só torna a vida uma postergação da ocorrência da morte, mesmo na mais plena e atestada saúde física e mental, porque os acidentes existem para justificar aqueles casos em que tudo conspirava para a mais ampla plenitude da vida e um tombo, um nadinha, uma bala perdida, um terremoto, um prego enferrujado, um vendaval... um átimo intervalar separa a vida da morte.
Recentemente li a seguinte frase de Oscar Wild: ”Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe”. E tive de parar para pensar no que é realmente viver. Não vou me deleitar sobre tão controverso assunto visto que vou-me esbarrar na questão do livre arbítrio. Mas podemos concordar que se viver é diferente de existir, já que existir pode ser interpretado como o cumprimento apenas do ritual de estar vivo, então viver seria não só estar vivo como também celebrar em cada coisa que se faça a comemoração dessa condição. Não a celebração como obrigação, mas como condição plena imprescindível. Missão difícil, que deveria ser direito de todos.
Missão difícil porque a celebração da vida como condição sine qua non exige um exercício que muito bem nos foi exposto pelo parnasiano Raimundo Correa em “Mal secreto”: Quanta gente que ri, talvez, consigo / Guarda um atroz, recôndito inimigo,/ Como invisível chaga cancerosa!/ Quanta gente que ri, talvez existe, / Cuja ventura única consiste / Em parecer aos outros venturosa!” Ora, isso significa passar pelos problemas da vida com leveza diante dos outros. Claro que viver com leveza exige não descer do salto, não exasperar, ser paciente, esperar sua vez, não gritar alto, demonstrar equilíbrio sempre, ser gentil. Sim, a gentileza. Não pesar aos outros com nossos problemas é gentileza para com o outro e para conosco mesmo, porque preservamos a amizade do outro para conosco.


Viver bem, portanto, exige um equilíbrio entre o indivíduo e os acórdãos sociais, familiares, tribais, religiosos e quantas forem as organizações que rejam os indivíduos em suas relações. E eu quero perguntar se viver bem não requereria de mim e de todos nós uma certa dose de egoísmo. Sim, porque viver bem significa não acrescentar preocupações em nossa cabeça além das nossas. E como é que não me preocupo com o destino de meu país, de minha neta, quando vejo o jornal nacional e concluo que até minha quinta geração estará seriamente comprometida pelo que nossos governantes estão fazendo? Como é que curto um inutilia truncat, se para nós cidadãos é complicado demais entender a diferença entre o preço real de um produto e o seu valor de mercado acrescido dos impostos que nos são cobrados para manter a corte que nos vende a alma a troco de votos para barrar denúncias e livrar criminosos da justiça?
Sim, Epicuro tinha razão, porque a vivência equilibrada dos prazeres nos pode levar a encontrar tranquilidade e libertação de sofrimentos físicos. O prazer de viver é o equilíbrio. Mas o prazer de nossos governantes não se sacia, são apartamentos, cuecas, malas, cofres, contas no exterior, tudo tão abarrotado de dinheiro que nem uma vida inteira de mortais nababos poderia consumir, o que nos leva a pensar que os políticos brasileiros são deuses eternos, que sustentarão toda a sua falange in saecula saeculorum, Amem, às custas de nosso tormento diário com insegurança, sistema de saúde sucateado, escolas sem qualquer estrutura digna dos pequeninos humanos que ali aprendem o quão será amargo o pão (que pode ser alimentos vencidos sob a forma de ração) que lhes espera, já na primeira infância. Pois um governo que descaracteriza o trabalho escravo, que torna imune e impune todo delito ambiental contra a mãe terra, e que promove a descaracterização do que seja um crime, mesmo diante de provas cabais adquiridas em flagrante delito ou por delação, pode fazer muito mais: bem poderá anistiar pedófilos, descaracterizar violências sexuais e estupros contra crianças e jovens, muitas vezes utilizadas nas orgias de deputados, prefeitos e vereadores, como já o vimos em outras ocasiões, quando, para aliviar a barra de um deputado pedófilo e estuprador, aprovou-se a lei por meio da qual se entende que uma criança violentada, para a qual se “arranja” um casamento, não representa mais motivo de denúncias contra seu agressor, uma vez que a honra foi lavada. Tudo para conseguir manter toda a sua corte de bajuladores e corruptos, seus privilégios e direitos de decisão e sobretudo, a impunidade de todos.


Sim, preservemos a arte de viver, mesmo com todos esses infernos que nos rondam. Ensinemos aos nossos a viver com amor, a serem humanos, único limite que nos separa de qualquer animal solto no Planalto Federal. Ensinemos a eles uma grande sabedoria deixada por Alexandre, o Grande. Esse, antes de morrer, solicitou três coisas: 1) que seu caixão fosse transportado pelas mãos dos mais reputados médicos da época; 2) que fossem espalhados no caminho até seu túmulo, seus tesouros conquistados - prata, ouro, pedras preciosas…; 3) que suas duas mãos fossem deixadas balançando no ar, fora do caixão, a vista de todos.
Esses pedidos estranhos causaram impacto em um dos generais que indagou sobre os desejos de seu superior. Ao que Alexandre justificou: 1) Quero que os mais iminentes médicos carreguem meu caixão, para mostrar aos presentes que estes não têm poder de lutar contra a morte; 2) Quero que o chão seja coberto pelos meus tesouros para que as pessoas possam ver que os bens materiais aqui conquistados, aqui permanecem; 3) Quero que minhas mãos balancem ao vento, para que as pessoas possam ver que de mãos vazias viemos, de mãos vazias partimos.


Viver bem talvez seja isso, a prática do desapego ao que é material para uma experimentação mais digna do que seja a essência de cada um de nós. Não houve um conquistador que ultrapassasse Alexandre, o Grande em sua vitoriosa jornada do alto do Punjab ao Estreito de Gilbratar. Até os trinta anos, o Grande havia criado um dos maiores impérios do mundo antigo, invicto em todas as suas batalhas, que não foram compradas com sangue e suor daqueles que o seguiram ou nele depositaram sua fé e sua confiança. Talvez devamos cultuar mais os pensamentos filosóficos e a vida. Afinal, Alexandre tinha uma cabeça formada por Aristóteles. Afinal, homens sem caráter e sem essência são prejudiciais a nossa vida, a nossa felicidade e à dos nossos semelhantes. Pena que o Ministério da Saúde, saqueado, sucateado, precário e à beira da morte já não tenha condições de nos advertir sobre o consumo dessa droga.