Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 20/11/2017 às 16:11 horas                              

# O que fizeram da nossa fé ?

 Leni Nobre

 

Ultimamente eu já andava atônita com os acontecimentos na política nacional, mas o que aconteceu na última semana no cenário político e judiciário brasileiro me deixou estarrecida. Não vou propagandear o que já está no noticiário, mas eu quero falar de umas das canções que me marcaram nos desejos da juventude de minha época e de nossos delírios de libertação do Período de Ditadura Militar e após o movimento Diretas-já. E como é um poema belíssimo vou citá-lo. Chama-se Carta à República e é de Milton Nascimento:
“Sim é verdade, a vida é mais livre
O medo já não convive nas casas, nos bares, nas ruas
Com o povo daqui
E até dá pra pensar no futuro
E ver nossos filhos crescendo e sorrindo
Mas eu não posso esconder a amargura

Ao ver que o sonho anda pra trás
E a mentira voltou
Ou será mesmo que não nos deixara?
A esperança que a gente carrega
É um sorvete em pleno sol
O que fizeram da nossa fé?

Eu briguei, apanhei, eu sofri, aprendi,
Eu cantei, eu berrei, eu chorei, eu sorri,
Eu saí pra sonhar meu país
E foi tão bom, não estava sozinho
A praça era alegria sadia
O povo era senhor
E só uma voz, numa só canção

E foi por ter posto a mão no futuro
Que no presente preciso ser duro
E eu não posso me acomodar
Quero um país melhor.”

Pois confesso que, revisitando essa letra de música, veio-me uma angústia muito profunda diante da obviedade que ela retrata sobre a nossa esperança, metaforizada como “um sorvete em pleno sol”. No Brasil, acreditar que um político não esteja envolvido em falcatrua é quase cegueira. Mas a nossa esperança e a nossa crença é que nos faz confiar em alguém pelas propagandas que ele faz de si mesmo. É por isso que assessor de campanha de candidato se chama marqueteiro. Cada político se transforma num produto pelo efeito das estratégias de marketing. E votamos nessa figura idealizada pelo marqueteiro e pela mídia. É assim que, todos nós que votamos, temos acesso ao candidato blindado por uma grossa cortina preparada pelo seu assessor.

Voto em eleição no Brasil é uma coisa secreta, mas eu me sinto bem livre, à vontade e tranqüila para dizer que não votei em Collor, nem em Aécio, mas votei em Lula e Dilma nos dois mandatos e não por ser uma pessoa burra, cega, encrenquinha como são chamados os simpatizantes do PT. E não quero que me julguem mal, porque algum de vocês votou Temer como eu (via Dilma), votou em Aécio Neves, votou para eleger alguns dos que se encontram trancafiados nas grades, etc., etc., e pode haver até alguém que vote em Bolsonaro, o político mais desrespeitador dos direitos das minorias e da liberdade de culto neste país, da mesma maneira que Collor foi reeleito e, mais cedo ou mais tarde, todos esses políticos investigados, indiciados, julgados e condenados ou não, voltarão ao cenário político. E poderão ser eleitos novamente pelo povo. Isso é porque alguém acredita neles. E tem esperanças em algum benefício próprio ou coletivo, advindo daquele candidato. Quem vota cria esperanças. Expõe a sua confiança, a sua crença junto com o voto, expõe a sua fé.

E é assim que, como na canção, a gente briga, apanha, luta, vai às ruas, pinta a cara e sonha. Quem faz assim não está em desespero, cria esperanças, acredita em esperanças e o que os políticos desavergonhados deste país fazem é derreter essas esperanças. E vou falar a verdade: achei ótimo tudo o que ocorreu nos últimos dias, porque as investigações chegaram à cúpula, e a profundidade das feridas por onde sangram nossos bolsos, nossa seguridade social, nossos direitos constitucionais garantidos nas leis trabalhistas pode ser vista sem lupa, sem escafandro, a olho nu. Mas eu até preferia que tudo seguisse até a próxima eleição, hora de nossa obrigação de separar o joio do trigo, para que acertássemos as contas com quem trai a nossa esperança e a nossa fé. Mas o cardápio assustou o mundo, estarreceu o país e mostrou que a nossa democracia é mais frágil do que um sorvete em pleno sol: é fogo na palha!

Eu não quero, não posso e não devo ser condenada por ter votado nesse ou naquele candidato, por ter acreditado em alguns deles e posto minhas esperanças em suas mãos. O problema não está em você ou em mim que elegemos o candidato X ou Y, porque tivemos esperanças, acreditamos nele e o referendamos como legítimos. Porque o candidato, que em sua origem grega significa aquele que se vestia de branco para que ficasse visível na população e, assim, fosse observado em sua candura, ou seja, sua lisura e suas ações para que pudesse ser ou não votado, esse candidato teria de ser realmente cândido. Mas não temos acesso a ele e, sim, a um produto midiático.

Segundo Rose Fitzgerald Kennedy, a criança vive o que ela aprende. Penso na descrença e na desilusão dessa juventude de agora, e me perguntam: “mas a sua geração viveu a ditadura militar e estão bem, são homens e mulheres de bem, a sua geração superou bem as cicatrizes da história”. Sim, sobrevivemos porque as causas que levaram à ditadura militar foram os sonhos, a fé e as esperanças de uma geração inteira que, mesmo durante a repressão e o obscuro dos porões repressivos foram mantidos acesos. Mas a essa geração que agora assiste a esse dantesco espetáculo em que as atitudes de nossos governantes mais parecem cumprir uma missão infernal, a essa geração eu tenho de dizer que é preciso continuar esperando, continuar tendo fé, continuar vivendo sonhos porque um dia, e será breve, se Ivan Lins estiver correto, “Cai o rei de Espadas/ Cai o rei de Ouros/ Cai o rei de Paus/ Cai, não fica nada”. E é com a serenidade de Carlos Drummond de Andrade que devemos olhar este momento: “O presente é tão grande, / não nos afastemos/ Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”.