Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 16/10/2017 às 15:42 horas                              

# Utopia

Amanhã amanhecerá um dia diferente
Amanhã ninguém chorará
Ninguém terá fome, nem sede
não dormirão pessoas nas calçadas
e nem haverá crianças sós.
Elas serão amadas
livres e respeitadas
e os adultos serão crianças
na ciranda do amanhã.

Amanhã ninguém saberá de nada
da dívida externa, do convênio nuclear
ninguém terá vivido qualquer tristeza.
Amanhã começará amanhã, apenas.

E nós seremos puros e completos
teremos almas e sorrisos
nossas mãos se alongarão de dádivas
nossos braços se alongarão de abraços

Tudo isto, amanhã,
em edição extra e para sempre.

E se duvida disto tudo que eu digo
e me diz que sustento uma utopia
eu digo que é preciso sonhar sempre,
que é preciso criar todas as manhãs,
preciso é sustentar a qualquer custo
os nossos sonhos como pão de cada dia.

Estamos em tempos de Natal, de solidariedade redobrada para com o próximo, de sensibilidade aguçada pelo espírito da cristandade. Mas mesmo assim, é possível que as pessoas pensem que o autor dos versos acima pirou de vez, tomou rivotril por conta própria em dose errada, usou drogas psicodélicas ou bebeu demais. E não é nada disso. Ou aliás, poderia até ser. Qual cidadão em sã consciência ficaria tão apático diante do cenário político, social e econômico que se descortina em nosso país a ponto de delirar como num poema desse? Qual cidadão não perceberia, se não estivesse dopado ou tivesse sofrido lavagem cerebral, que os últimos acontecimentos políticos facilitaram aos nossos governantes poderem continuar seus roubos, imbróglios e falcatruas? Quem não percebe que enquanto a nação e os estados se declaram falidos, mais e mais corrupções se apresentam no cenário e não adiantou muita coisa o impeachment da presidente Dilma Rousseff? A votação das medidas orçamentárias na velocidade da luz, sempre punindo o contribuinte com as despesas, agora aumenta o nosso tempo de contribuição e retarda a nossa aposentadoria. Porque, como foi delatado recentemente, os dirigentes dessa orquestra roubam até sombra de árvore, porque não nos roubariam até o direito ao descanso?
Se o poema tivesse sido escrito hoje, isso seria possível, mas ele nasceu no calor da juventude, em clima das Diretas já. Naquela época, acreditávamos em um mundo melhor, tendo em vista o pouco que sabíamos do período da ditadura militar, e que já era um absurdo contra os direitos humanos, naquelas calorosas passeatas que tomaram conta das universidades e vias públicas em 1983-1984. Era como dizia Milton Nascimento “numa só voz, numa só canção”. Naquela época, paramos as aulas, fizemos vigília, fomos para as ruas, cantamos “caminhando e cantando e seguindo a canção”, entoamos “Coração de estudante”. Não tivemos eleições diretas, daquela vez, mas vultos como Teotônio Vilela, Marco Maciel, Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, dentre outros, nos inspiravam e acreditávamos que, com eles, a vida nos desse flor e frutos. E não foi nada disso depois.
Em 1992 o Brasil protagonizou o primeiro processo de Impeachment da América Latina que provocou a renúncia do Presidente Fernando Collor de Mello, primeiro presidente eleito pelo povo pós-ditadura militar, em 29 de dezembro. Derrubamos um presidente corrupto e ladrão com toda a sua corja envolvida em inúmeras falcatruas, ele que tinha acenado lutar contra os marajás. Mas continuamos vítimas de corrupção. Muitos processos contra corruptos foram abertos, mas continuamos assistindo à festa de todos eles no Palácio do Planalto, ocupando cargos que acreditávamos ser para gente honesta, e curtindo a vida como nababos, tudo pago com nosso dinheiro.
Derrubaram a primeira presidente do Brasil. Agora, uma nova juventude utopicamente ocupa escolas, debate sobre a nova educação que queremos, sabe o que significam todos os episódios que vivemos no cenário político nos últimos três anos envolvendo toda a sujeira que paira sobre nossos governantes os quais, como um câncer devastador, sugam o erário público para sustentar suas ambições desmedidas e sua sede de poder, como tiranos e déspotas que se julgam no direito total sobre todas as cabeças e todas as jugulares. Estrangulam as leis e os direitos de todos para satisfazerem cada vez mais os direitos de si mesmos. Essa juventude sabe, sobretudo, o que significarão os cortes que estão propostos na PEC 241 porque tais propostas lhes dizem respeito aos próximos 20 anos. Pode ser que a maioria das pessoas da minha idade não esteja mais viva, então. Mas para quem tem hoje até essa idade, verá comprometida a parte da vida mais rica em possibilidades de oportunidades.
Ainda creio sim, num mundo com a utopia presente nesse poema escrito no fogo da paixão que o término da ditadura militar acendia nos corações jovens como era o meu naquela época. Porque penso nos brasileiros que estão nessa faixa etária e talvez o grande mérito de muitas das medidas políticas atualmente anunciadas não tenha nada a ver com o povo brasileiro, mas com conluios que remontam a mais de quatrocentos anos, articulados no início da divisão do Brasil em Capitanias hereditárias. Os herdeiros e consignatários de tudo o que está aqui continuam cobrando altos ônus do povo pelo uso da terra e do que nela está.
Talvez, como li numa postagem de um amigo meu que mora no Canadá, a água do brasileiro não esteja sendo tratada com cloro, mas com rivotril. Talvez a utopia descrita no poema seja coisa de Madre Tereza de Calcutá ou de irmã Dulce, que Deus as tenha! E haja muitos famintos e sedentos, pessoas dormindo em calçadas e crianças despidas de direitos em todas as suas carências e limites como incapazes. E nenhum dia novo surja, porque não teremos mais esperança em nada, nem confiança em ninguém. Mas isso não é culpa nossa. É de nossos governantes. Pelo menos enquanto não assumirmos que nesses tipos de vilipêndios para com o povo, pode ser sim, culpa do povo que esses poderosos assim tenham a si preservado tantos direitos por mais de 400 anos.
Cabe sim, uma utopia e um Feliz Natal para cada um de nós, pois felicidade deveria ser um bem de consumo garantido para todos. Mas é preciso que de alguma forma, e eu não sei qual, a gente consiga achar uma saída para banir com os corruptos e a corrupção no Brasil. Mais utopia!!!