Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 07/06/2017 às 11:07 horas                              

# Desafio "Leni Nobre"

Desafio
Quando reuni os poemas para organizar a edição de “O sol brilha por si”, com certeza escolhi o que eu achava que possuía de melhor. Nem sempre nossa visão coincide com aquela que nosso leitor terá. Alguns críticos literários defendem que a obra literária, uma vez escrita e publicada não pertence mais ao autor. Outros defendem que os autores são celebrizados junto com suas obras. Mas não é raro uma célebre obra não ter consagrado seu autor. Quem conhece o escritor da famosa obra literária celebrizada por Bizet na ópera Carmen? Pois pode acontecer também do próprio autor decidir esclarecer sua obra ao público, como o fez Manuel Bandeira em Itinerário de Pasárgada, em que ele refaz, brilhantemente, todo o percurso de sua produção, coisa para grandes mestres como ele, não para a amadora que aqui se retrata.
Mas, numa espécie de análise póstuma, nessa oportunidade, falarei de dois outros poemas do livro, e é estranho, eu não sei meus poemas de cor, mas lembro-me com certeza dos motivos que levaram à sua produção. O segundo poema “Minas Geraes” foi uma reflexão que teve sua origem quando, em viagem para Belo Horizonte para fazer a minha Carteira de Identidade, pude ver a Serra de Ouro Preto, a passagem de Mariana, todo aquele mar de montanhas e despinhadeiros que nos faziam tremer nas bases a bordo da Viação Pássaro Verde. Eu morava em Ponte Nova e ia fazer meu primeiro (e único) vestibular na Universidade Federal de Viçosa. BH era desconhecida para mim e aquela estrada cheia de curvas, desesperava qualquer viajante. Sei que, quando cheguei de volta a Ponte Nova, marcada pelas impressões dessa primeira grande viagem, saiu-me este poema:
Minas Geraes
Montanha vale
montanha,
vale
subida
descida
curva, pedra

e muitas pedras
imóveis
ferro, negro minério
ouro branco preto
ouro áureo diamantino
e montanhas

O grito do povo no fundo dos vales
vira eco ao próprio povo
o lamento do povo no fundo dos vales
vira água de gerar saciedade
as forças do povo no fundo dos vales
esfarelamas pedras
cavam minas
fazem Minas.
E o povo olha os píncaros desconfiado,
tímido Tomé, mas ele sabe
que é possível o escalar.

É interessante como as viagens podem mudar mesmo as pessoas e as suas visões de mundo. No ano seguinte, já morando em Viçosa e iniciando meu curso de Letras (fui aprovada no citado vestibular), viajei com uma família, em cuja casa eu trabalhava, para Nova Viçosa, na Bahia. Fui passar o carnaval na praia para cuidar das crianças do casal. Pois o mar me encantou tanto, aquele mundão velho de água, água salgada, ondas tirando o biquíni da gente distraída e eu morrendo de vergonha, morrendo de medo de onda, de passar vexame na frente dos outros, ficava na beiradinha, brincando com as duas crianças, só na maré mansa. Pois o poema seguinte foi obra desse momento à beira mar. Eu curtia ou sofria, não sei bem como definir, uma paixão platônica nunca revelada porque o príncipe encantado era, na verdade, incessível para mim, portanto impossível de ser desencantado, e era uma idéia desproposital de tudo. Mas as paixões platônicas existem para confirmar a tese de que existem paixões platônicas. Vamos ao poema, que é o que restou.

Beira mar

O amor é que nem mar
sempre produzindo ondas
varrendo a areia na força
da ressaca da maré

O mistério é de Iemanjá
o resto é o que o homem faz

e eu na ilusória filosofia
do catar conchas e resíduos
entre o fluxo e refluxo
de uma onda e outra

pudesse eu cavalgar na espuma
adentrar o mar
respirar a maresia
e os olhos estariam abertos
para o sol e para o sal.


É engraçado que, agora, revisitando esses poemas, parece-me renovar a alma daquela pureza e fantasia que cobre todo jovem. Eu acreditava que se eu tivesse coragem de adentrar as ondas do mar sem medo de levar caixote eu também teria coragem de abrir os olhos para o amor. E passei a vida mesmo acreditando que se a gente vence um desafio, fica mais forte para encarar outros, e aí eu enfrento os obstáculos, só para encarar mesmo.
Pois eu quero mesmo é desafiar Juninho Lobo, que anda fazendo um trabalho muito interessante e de qualidade inegável com releituras de grandes clássicos da música brasileira e internacional, para musicar o poema Minas Geraes. Eu ia ficar mais honrada do que Bob Dylan com o primeiro Prêmio Nobel concedido a um compositor de música pop e mais feliz que pintinho que acha minhoca no cisco.