Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 11/08/2017 às 15:42 horas                              

# A vida que pedi a Deus

Não podemos dizer se a vida que temos é a que pedimos a Deus. Nem que não seja. À medida que vamos vivendo, vamos experimentando e vendo as coisas que acontecem ao nosso redor e cada dia mais nós nos convencemos de que a nossa vida pode estar sendo exatamente aquela que nos cabe. Ainda agora, tomei a iniciativa de escrever - e posso fazê-lo, é uma faculdade que me cabe - porque acabei de ver um bebê que deve ter os seus seis meses, com uma mancha branca em lugar de cada olho. Será cego. E sobreviverá, seguirá seu destino, são tantos os cegos com os quais já nos encontramos ao longo de nossa jornada que podemos garantir: ele vai se sair bem. Por nascer cego, aprenderá a viver sem ver.
Mas não sejamos conformistas, nem acomodados. Nós nos irritamos, sim, quando não podemos mudar as coisas, praguejamos, sim, porque Deus não nos deu isso, não nos deu aquilo, que seria tão útil em nossas mãos e com que nós poderíamos realizar muitas coisas. Mas os deu a outras pessoas que as desperdiçam, não sabem usar ou desprezam porque, na verdade, queriam outras benesses que não as que receberam.
Eu li um pensamento pregado em uma placa de um escritório de contabilidade em Belo Horizonte que diz: “O pessimista faz da oportunidade uma desgraça e o otimista faz da mesma desgraça uma oportunidade”. Somos obrigados a nos recolhermos de nossa prepotência porque utilizamos muito pouco da nossa inteligência - nem 20%, os mais inteligentes -, nosso tempo não seria suficiente para fazer tudo o que queremos, temos de priorizar algumas ações e, às vezes, explorar um dom ou uma habilidade pessoal acaba ficando para segundo plano ou esquecido na gaveta. Mas não aproveitar a vida que Deus nos deu seria uma blasfêmia.
O fio da meada da vida pode não indicar nada enquanto achamos que o temos sob controle, mas quando ele se arrebenta em algum ponto, tudo pode se embaraçar, as coisas que se encaixavam nesse fio de vida podem se desordenar e nunca mais se alinharem como antes, mas não é isso uma novidade e uma oportunidade para evitar que a monotonia não nos torne velhos, ranzinzas, metódicos demais?
Antes que a vida nos pegue de surpresa, é preciso que surpreendamos a vida. Todo dia, sem cessar. Mas poderíamos dizer que certas rotinas não podem ser alteradas, que o café da manhã é rotina, que o banho é rotina, que dormir a certa hora da noite é rotina. Que triste isso, porque transformamos a vida numa rotina, fizemos da nossa vida e dos nossos atos uma rotina.
Mas a vida não pode ser vivida como rotina. Porque cada dia deve ser para nós como inédito, porque é, realmente, inédito. Tão inédito que não pode ser rotina. Uma das vantagens da vida é ela ser sempre inédita. Com extrema justiça, porque para todos, sem exceção. Porque a minha vida, a sua vida, a de todos nunca foi vivida, nem por mim, nem por você, nem por ninguém e nunca o será. Nem no cinema. Cada vida é uma edição inédita e o que é inédito ainda não é rotina.
Assim, o dia a dia após vivido ou por viver é edição única e esgotada da vida de cada um. Não pode ser rotina se não há repetição, nem há tempo para passar a limpo. Na verdade, o que se deve mesmo é celebrar tudo o que a vida traz. Sem celebração nada tem graça. Nem um transatlântico em sua magnitude na porta de nosso sonho pode ter graça. Afinal, tem graça mesmo é viver a vida como a mais inusitada possível, como a única que poderíamos ter, por ser ela a vida que Deus nos deu. E isso basta!