Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 16/10/2017 às 15:42 horas                              

#Dito e feito ou À guisa do prefácio :Leni Nobre


Prometi que vocês teriam O sol brilha por si nesta coluna, não prometi? Então cumpro. Vamos ao livro.
Um livro é um filho concebido, gestado e anunciado, que só encontra sentido se recebido, não pelo próprio genitor, mas pelos outros, motivo por que sempre se solicita a alguém que aprecie a obra e a apresente. Mas O sol brilha por si nasceu sem Prefácio. Sim, porque, na época de sua organização para publicar, era tanta a insegurança em relação ao que eu tinha em mãos, que não tive coragem de pedir alguém para apreciá-lo. Então, escolhi uma frase interessante, de Novalis, da qual eu gostava muito e ela me serviu de Prefácio: “A poesia é o autêntico real absoluto, isto é, o cerne de minha filosofia. Quanto mais poético, mais verdadeiro”. Eu creio nisso e faço disso a minha PALAVRA.
Ainda tenho essa crença, mas contextualizarei melhor o livro, que, publicado em 1987, trazia uma seleção das poesias que até aquele momento eu considerava publicáveis dentre as que eu havia produzido em minha adolescência e juventude. Muitos dos poemas já haviam passado pelo olhar crítico e encorajador de algumas pessoas, dentre elas, o generoso Luís Carlos Lobo Pereira de Freitas, Dona Mafalda Pizani, ambos do Rio Doce, o professor Kleber Rocha, de Ponte Nova e uns poucos amigos dentre os quais Luciano Sheik e Vadinho. Sem índice, o livro contém uma primeira parte com 36 poemas e uma segunda, Treze emendas para um amor total, exatamente com treze poemas. A publicação veio por intermédio de patrocínio do Lanches Lu, de Viçosa, com capa do artista plástico pontenovense Airton Pirtz. Bela contribuição, gentilmente elaborada e doada para a composição.
Como se pode perceber, trata-se de um livro de produção amadora, mas que teve uma recepção razoável, considerando todos os esforços principalmente de meu irmão Silvino Palhares que tomou como encomenda de livre e espontânea vontade, oferecer o livro um a um às pessoas do Rio Doce, Soberbo e Santa Cruz do Escalvado e Ponte Nova, coisa que eu mesma pouco fiz, acanhada e com medo da crítica.
Não vamos nos deter aqui em explicações detalhadas. Mas essa versão contará com detalhes que o livro anterior não tinha. Por isso, para o primeiro poema do livro, que não tem título, faço saber que foi produzido em um momento muito angustiado, a perda de minha mãe, Rita Barbosa de Oliveira, que tudo fez para que eu pudesse estudar e cujos esforços podem ser contemplados pela epígrafe do livro, retirada de “Força Estranha” de Caetano Veloso: “E a coisa mais certa de todas as coisas / não vale um caminho sob o sol”. E como ela queria que eu encontrasse um lugar ao sol! Segue, então, o primeiro poema do livro.


“Quando minha mãe viu que era tempo
E que tudo forçava a expulsão
Fez com a dor emudecesse
e o coração falasse baixinho:
- Vai, filha, vai que é tempo
Vai colher flores pela vida

E eu quis ficar

Minha mãe disse – Não!
Vai que a vida é primavera.

E hoje eu trago
trincados os calcanhares
áspera a pele
sem brilho meu olhar.

Onde as flores?”