Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 20/11/2017 às 16:11 horas                              

# Coisas da vida

O tempo passa. Não é necessário ter uma mentalidade barroca em toda a sua contraditória consciência da efemeridade de tudo o que não pode ser eterno para conceber essa máxima. Tudo passa! E também não é necessário ser um árcade para refletir sobre o quanto é urgente aproveitar tudo o que nos rodeia enquanto estamos vivos e as coisas, disponíveis. Carpe Diem. O tempo passa e a gente só percebe muito tarde, e tarde é quando? Pode ser amanhã mesmo. Pode ser daqui a uma hora. Quando é tarde para evitar que uma bala seja lançada contra o peito de alguém, que um corpo se jogue no precipício, que um carro estraçalhe um desatento no asfalto? Um segundo, um átimo de segundo, e o dedo não puxa o gatilho, o corpo prossegue sua caminhada e o carro freia no ato.


Quanto oito horas de sossegado e merecido sono duram e quanto duram essas mesmas oito horas em desespero, em insônia, em sofrimento? A vida não parece ter a mesma duração no mesmo lapso de tempo. Sofrimento custa passar, satisfação custa durar. E como deve ser custosa e demorada a vida de quem é atormentado todas as horas do dia, todos os dias da vida com os mais diversos sofrimentos advindos das mais estranhas adversidades.
A vida tem bem os seus modos de se proceder semelhantes aos dos rios. Cheios, vazios, claros, barrentos, oprimidos entre margens, transbordantes e ameaçadores fora delas... E não se pode conter um rio. Não se pode conter a vida. Um dia ela explode, um furinho na barragem vai minando, vira minadouro, eis o rio em seu curso aos poucos retomado e uma dia, rompe-se a barragem. A vida é, a vida acontece e todos os minutos passam, todos os dias, passam deliberadamente sem que a gente sequer perceba a sua dinâmica, a vida vai-se deixando em tudo um resíduo de sua passagem, como um rio, na lembrança de um flamboyant florido, na memória do cheiro do quarto de uma avó já falecida, no cor-de-rosa apagado do antigo colorido de casas abandonadas em desertas beiras de estradas, sem o riso dos donos, sem o alarido de crianças, sem o ganido de cães, e o vento deambulando corrosivo pelos corredores batendo portas e janelas deliberadamente destrancadas, sem o que proteger, tudo levado pelo tempo, aliás retomado pelo tempo, sempre dono e senhor de tudo a que ele preside, porque ele é eterno.


Por isso, para todo propósito debaixo do céu há um tempo. Tempo para espalhar e tempo para juntar. Tempo para nascer e para morrer. Então, tempo para dormir e para acordar. E o diabo é que ontem dormi como quem sou, eu mesma, passei uma noite de gala e acordei a gata borralheira mais feliz da vida. Do nada, fui sonhar que preparava uma macarronada para um jantar, havia umas visitas em casa, e eu ali na cozinha, tomando vinho com um dos convidados que tinha trazido um azeite. E falamos de música, perguntei por que não gravava mais nada novo, se tinha virado escritor. E ele disse que estava preparando umas coisas meio que em surdina.  Alguém vinha tocando uma música no violão, lá da sala... era o despertador. Chico Buarque mais o moço que tocava a música, a macarronada, o vinho, tudo foi por água abaixo, num piscar de olhos.
Tempo de dormir. Quanto tempo do sono durou o sonho? Não sei. Mas foi tão bom aquele encontro assim do nada, mesmo que em sonho, que meu dia se irradiou diferente e lúcido, pareceu-me a manhã muito mais charmosa, e a vida, inesgotável em sol matinal de agosto, no terreno baldio, na florada do campim-melado, ondulante ao vento. Dia novo, vida nova. No mais, conta o minuto de agora, a próxima hora, o próximo dia, desde que o agora seja exatamente agora. E se cair na realidade traz o impacto de saber que “quem dera eu pudesse estar assim de bate papo com Chico Buarque”, qual o problema? Na minha cabeça fica aquela experiência do sonho.  O tempo é quem decide o que fazer com ela. É isso!