Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 11/08/2017 às 15:42 horas                              

# 2015, de minuto a minuto (Leni Nobre)

2015, de minuto em minuto( Leni Nobre)


Todo ano novo é também momento de promessas de mudanças: este ano vou parar de fumar, este ano vou ser mais econômico, este ano não vou estourar o cheque especial, este ano vou perder a barriga, tirar meu diploma, tirar carteira de motorista, casar, ter mais um filho, et coetera e tal.


Às vezes a gente cumpre, às vezes não, o que é muito lógico porque ao final daquele ano que já foi novo e se encerra, a gente sempre tem uma desculpa: não parei de fumar porque tive muitos problemas, o cigarro me acalmava, virou meu único companheiro; economizar como? As despesas independem de mim; foi doença, foi o aniversário de fulano, gastei com isso, com aquilo, não teve jeito, estourei o cheque especial e o cartão de crédito; não perdi a barriga porque cheguei na menopausa ou na andropausa, meu metabolismo desacelerou; terminei com o namorado; comi mais do que devia; fiquei desempregado em casa, mudei de rotina; aquela professora puxou meu tapete, não tirei o diploma por causa dela; se não fosse aquele maldito desarranjo intestinal eu estava com a carteira na mão; eu queria casar, mas minha namorada não quis. E assim a gente vai se explicando e se justificando pelas coisas que não aconteceram e pelas que fugiram do nosso controle.


Na verdade, a gente não precisa se explicar e nem se justificar. O que realmente acontece é que a vida é fugaz e o que temos mesmo é o minuto em que estamos vivendo. Embora todos nós nos orientemos pelo passado e pelo futuro gastando o presente para processar esses dois tempos, na verdade, escapa-nos que esses dois encontram-se fora do nosso alcance: ambos não existem, o passado porque só ficará na memória e o futuro porque ainda não aconteceu. Nós é que permanecemos e carregamos o passado conosco, crendo que podemos controlar o futuro.


Não penso que devamos ser levianos a ponto de levar a vida ao Deus-dará, totalmente ao acaso, porque ninguém nos garante que o acaso vai nos proteger enquanto andarmos distraídos. O presente é o verdadeiro momento de celebração da vida e celebrar a vida é vivê-la na condição de plenitude e só somos plenos se o passado nos serviu para alguma coisa e o futuro constitui uma esperança bem cuidada no presente. Mas não devemos viver o presente em função dessas duas coisas. O presente é o grande presente da vida.


Cada ano que se abre para nós não traz nenhuma promessa que não seja a de que há uma eternidade de minutos a serem vividos e devemos viver cada um daqueles que nos forem concedidos como se fosse o último, de tal modo que não me arrependa de tê-lo deixado no passado. E que eu leve de cada um desses minutos a essência deles que pode ser a do sorriso de uma criança, dos primeiros passos de um bebê, do reencontro de uma amiga ou amigo, de um brinde à saúde, à felicidade do outro ou à aprendizagem da perda de entes queridos. Pena é que a gente aprende isto quando está mais maduro: viver é o imprescindível quando se está vivo. O acaso é que está fora de nosso controle.


Assim sendo, o que nos resta da vida e deste 2015 a não ser viver todos os minutos das horas dos dias que nos forem concedidos? Se é inevitável que o próximo minuto de nossa vida - o futuro - possa ser o episódio de nossa própria morte, que essa seja de tal modo que dentro de nós mesmos estejamos de bem com o que fizemos dos minutos de nosso passado, para que possamos sorrir em nossa passagem, deixando para outrem que nos chorem quando nos formos.