Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 11/08/2017 às 15:42 horas                              

# Alma penada (Leni Nobre)



        Zé Estrovenga  saiu de casa e foi pro povoado do Rio Doce para  comprar  uma muda de roupa. Ouviu falar numa tal de calça Jeans e queria muito ter uma daquelas porque Festa do Rosário estava chegando e é lógico que ele ia querer aparecer bonitão, de roupa nova. O milho de soca dera uns bons resultados. Foi direto na loja de Heitor Dornellas.
        _ Uai, sô! Mas está munto cara, sô Heitor. Ansim não sobra pra camisa.
        No final das contas, levou calça, levou camisa e ainda sobrou um trocadinho para tomar um golezinho lá no Antônio Rosinha. Bebeu, juntou -se com os amigos e foi-se embora. Chegando em São Sebastião do  Soberbo, deu uns dedinhos de prosa, despediu-se da turma,  e resolveu vestir a calça nova para chegar  em casa e impressionar um pouco. Estrovenga sabia que ninguém tinha calça Jeans lá na Pedra do Escalvado. Já era boca da noite, mas o pessoal ficava ali na grama da casa de escola conversando. Ele ia descer pelo trilho da velha Carlota, o povo ia reparar nele. E seguiu caminho.
        Enquanto Estrovenga estava dentro das ruas do Soberbo, não notou nada de estranho, não. Mas foi caminhando mais pelo córrego da Tânia, já na saída do povoado, passando por debaixo do morro do cemitério, foi que começou a ouvir passos, um barulho esquisito que o acompanhava. Se ele andava, o barulho o seguia. Se ele parava, o barulho silenciava. Estrovenga começou a suar frio.
        _ Ai, meu Deus, será alguma alma penada que quer me acompanhar para o lado da Pedra?
        E gritou:
        _ Se for alguma alma penada, desafasta, volta pra donde veio, com os poderes da alma de Padre Arlindo, Padre Ermelindo e Padre Antônio Pinto de Urucânia!
        E começou a andar mais rápido, acreditando no efeito de sua invocação, cada vez mais rápido, a calça boca de sino atrapalhava-lhe os passos, tropeçava feito bêbado e conseguiu subir o Morro das Pedras num instante. Sem coragem de olhar para trás, percebeu que o barulho dos passos o seguia pelo que ouvia e, por mais que corresse, mais  também o barulho dos passos aumentava.
        _ Ai, valei-me, minha Nossa Senhora Santana, me valei!
        E foi correndo, o desespero consumindo-lhe as forças, foi correndo até alcançar o trilho em que se descia para a casa de alguém conhecido. Nem o cheiro insuportável da sujeira que deixara escapar de tanto medo, misturada com a urina, conseguira espantar a alma que saíra  do cemitério e lhe seguia os passos. Foi do alto do morro mesmo que ele gritou.
        ¬ _ Osvaldo Martins, segure seus cachorros!
        E desceu pela trilha em desatino, foi dar no terreiro do amigo, que veio com uma lamparina e o cheiro ruim foi logo pressentido.
        _ Nossa mãe, o homem está é podre!
        Os cães o atacaram, mesmo com os gritos do dono, mas recuaram-se assustados. Zé Estrovenga cheirava realmente mal. E quando chegou ao terreiro, caiu desmaiado.
        _ Meu Jesuscristinho, o que houve com o pobre do Estrô?
        Estrovenga custou voltar a si porque ninguém aguentava ficar perto dele para ajudá-lo com um algodãozinho de álcool ou  coisa  parecida  para reanimá-lo. Quando acordou, falou desesperado:
        _ Este cheiro é dela, da alma penada que saiu do caixão lá do cemitério e está me perseguindo desde o córrego da Tânia.
        _ Alma penada?
        _ É . Se eu ando, ela anda. Se eu  paro, ela pára!
        _ Este cheiro é das suas calças. Não manjou ainda?
        _ Como? Acabei de comprar no Rio Doce,  lá no  Heitor!
        Estrovenga levantou-se meio desapontado, e caminhou para a bica para beber água e o barulho recomeçou, a alma penada estava lá, no terreiro de Osvaldo.
        _ Escuta só, ela me acompanhando!
        Osvaldo riu. O pessoal da casa, que até aquela hora, enrolado em lençóis, sem saber se rezava, se esconjurava a tal da alma penada, com os narizes escondidos pela mão em concha por causa do mau cheiro, começou a rir. E a rir muito. E todos riram.
        Estrovenga não entendia o porquê, mas cada passo que dava era motivo para mais riso.
        _ De que riem tanto, gente? Por acaso a alma penada não assusta vocês?
        _ Não, Estrô. O negócio é que você veio correndo, do Soberbo até aqui, de suas próprias calças. É que o pano é grosso, a perna é larga, uma  esbarra na outra e faz este barulho aí.
        Estrô pediu licença para as senhoras, tirou as calças no escuro, jogou logo adiante no mato, com muita raiva, lavou-se na bica, vestiu a calça velha que levava no embornal e reclamou:
        _ Ah! Sô Osvaldo, o diabo da calça me custou tão caro e agora  fica me fazendo ficar avexado deste jeito! Se puderem guardar segredo disto tudo, eu fico  muito agradecido.
        _ Se incomode, não, Estrovenga. A gente entende que estas coisas acontecem, mesmo.
        Despediu-se e saiu. E já ia caminhando tranqüilo, assobiando “Meu Primeiro Amor”, quando um vulto branco passou-lhe de lado, olhou-o de frente e comentou:
        _ Andando assim, já tão tarde e sozinho, companheiro? Isto já são horas das almas!
        Estrovenga nem se assustou. Fez foi rir. E retrucou.
        _ Que alma, que nada! A calça já ficou para trás, aquela desgraçada.
        E só então deu por si. Daquela vez, era mesmo uma alma penada.