Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 16/10/2017 às 15:42 horas                              

# Ciganice (Leni Nobre)

A boiada surgiu antes do boiadeiro. Quando a vi de longe, encostei-me no canto do barranco para deixá-la passar, muito sufocada, porque não havia cerca para proteger-me. Sempre tive medo de bois, que nunca tive inspirações para toureira. Espremi-me no canto até pensar que me tornara invisível e, ao ver o boiadeiro, perguntei-lhe:
        _ Estes bois pegam, moço?
        _ Pegam nada, que eu não deixo boi meu pegar moça bonita.
        E olhava de cima do cavalo, interesseiro, respeitador, dando-me a vontade de dançar balet no chifre do boi maior da boiada. Uma coragem!
        _ Eta, ferro! Deus não dá asas à cobra, que a boiada não é minha. Que se fosse, eu punha certa moça na garupa do meu baio e, adeus viola!
        E rimos, ele guiando a boiada, olhando muito para trás, garboso e convencido, não se importando nadinha com a mancada que dera com o escorregão do cavalo na lama da chuva, que quase o derrubara e lançara seu chapéu longe. Sorria, achando bom aquela coisa assim, cigana. Se não fosse o susto que ele levou... E se eu não tivesse  que levar o litro de querosene em casa para a lamparina de noite, talvez eu pulasse na garupa do cavalo de um certo boiadeiro e adeus, viola! Mas Deus não dá asas à cobra!...
        O mundo é grande e pequeno. O moço que era guia de boiada, guia de boiada ficou. Inda agora, depois de tantos anos, passei por ele, ainda guiando o gado, a mesma paciência, os bois ruminando o capim que margeia a estrada de chão. Está mais velho, acabado, mais sisudo e pensei um pouco para perguntar de novo:
        _ Estes bois pegam, moço?
        Talvez eu não esperasse a mesma galhardia do passado, nem  o brilho que as palavras possuíram naquele tempo.
_ Pegam não, senhora. É gado manso.
        E não sorriu, não gracejou, olhava-me curioso sem me  reconhecer  e eu já não tinha mais a disposição de dançar no chifre do boi  mais manso da boiada. E o litro de querosene, a energia elétrica substituiu.
        A boiada passou, o boiadeiro passou, eu fiquei parada, sem graça, as mãos vazias, a poeira vermelha baixou, o brilho nos olhos se apagou. O tempo passou. E como o mundo e o tempo nos faz perder o encantamento!
        O encantamento passou.