Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 20/11/2017 às 16:11 horas                              

# AMULMIG

Moro há quase quarenta anos na mesma casa, em um dos lados da Praça do Papa, que Minas Gerais inteira conhece, em Belo Horizonte. Entre outros hábitos, temos, minha mulher eu, o de caminhar na pista aqui existente, no Parque das Mangabeiras, em algumas ruas. De vez em quando, de carro, damos umas voltas para apreciar casas e jardins.
No último abril, num desses passeios, do outro lado da mesma praça, paramos um pouquinho em frente à sede da AMULMIG, Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais.
Míriam perguntou porque eu não pertencia à Academia. Disse que não estava à altura dos acadêmicos e ela:
- Está sim senhor! Vou te dar um presente de aniversário diferente!
E, cumprindo a promessa, acabou conseguindo que eu fosse aceito pelos acadêmicos como um futuro colega ou confrade, como dizem. Honraria de que continuo duvidando ser realmente merecedor.
Homenagens, a gente não pede. Mas também não recusa, ainda mais quando o ponto de partida foi um gesto carinhoso de minha mulher.
Enchi-me, porém, de escrúpulos: aceitando, serei o representante, na Academia, de minha terra natal. Como? Se praticamente só vim a conhecer Rio Doce, verdadeiramente, quando já beirava os sessenta de idade? De lá, saí quando mal havia completado oito. E como aceitar a honraria, se tantos conterrâneos a merecem, muito mais do que eu: Dagmar de Araújo Lima, Maza de Palermo, Hélcio Pinheiro Moura, Leni Nobre, José Geraldo Cenachi, Dodora, Vanda e Filhinha, todas Gallinari? e quantos artistas nasceram e viveram em Rio Doce muito mais tempo que eu, músicos, instrumentistas, compositores, maestros, cantores e cantoras, atores e atrizes? E seus muitos doutores? E seus professores e professoras? como explicar às autoridades locais que eu, quase um estranho, apareceria, meio de repente, como “representante de Rio Doce”? com procuração de quem?
Fiquei tranquilo quando fui informado de que cada cidade pode ter mais de um representante na Academia. Menos constrangedor para mim: não estarei ocupando ou tomando o lugar de ninguém.
Mesmo assim, fui à terra natal para me apresentar ao Prefeito Silvério, que ainda não conheço pessoalmente, dar-lhe explicações e solicitar-lhe a “bênção”, o “placet” o “nihil obstat”. Infelizmente, não estava em Rio Doce, naquele domingo, sua autoridade máxima, mas, recebido com muita cordialidade em casa da mãe de meu amigo Eduardo Real, ex-prefeito, pedi-lhe que explicasse ao atual o motivo de minha estada lá e o meu pedido.
Permissão concedida.
Na Academia, há um cerimonial de posse, um ritual. Devo fazer um discurso, o que me parece mais difícil e assustador que rabiscar meia dúzia de poemas: nunca foi orador, falo com dificuldade e convivo com uma timidez que me acompanha como outra sombra.
Velho demais para ter “medinhos” desse tipo, vou enfrentar o desafio.
Será uma oportunidade para apresentar a um seleto auditório minha terra natal; a incomum história de que resultou seu surgimento; o Caminho de São José. E acrescentar aos de tanta gente, mais uma vez, meu protesto e meu lamento pelo trágico acidente de que foram vítimas os moradores dos vales do Gualacho do Norte, do Ribeirão do Carmo e do Rio Doce e os muitos povoados e cidades por eles banhados, entre as quais Mariana, Barra Longa e Rio Doce, todas vitimas de crimes não punidos, que provocaram gigantescos prejuízos materiais ainda não devidamente compensados. Rio Doce, o município, foi praticamente privado de uma hidrelétrica e de um belo lago, recuperáveis embora a médio prazo.
Que meus conterrâneos escritores, poetas, artistas, intelectuais, estudiosos e o povo de minha terra aceitem meu papel de primeiro representante riodocense na Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais e me perdoem o atrevimento, eu que vivo pedindo licença e desculpas aos poetas e escritores de verdade.
Como ensina o Chapolim Colorado, sigam-me os bons!
José Alberto Barreto
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