Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 20/11/2017 às 16:11 horas                              

# Se você ficar dodói

Às vezes, fico agradavelmente ou assustadamente surpreso quando releio livros que já conhecia. Ou quando abro ao acaso um livro também já lido e relido, e faço “descobertas”: isto estava aqui o tempo todo e eu nem reparei!
Estava há tempos querendo contar mais “umas coisas”, de Rio Doce, para os riodocenses e amigos que me honram com sua atenção.
Abri antes, mais uma vez, o PAIAVA, de Luís Pinheiro, neto dos fundadores de Rio Doce, que agora, felizmente, até as crianças de nossa terra sabem que foram um maranhense, Antônio da Conceição Saraiva, e sua esposa Virginie Barnabeau Saraiva. Pois na primeira página que releio, vejo e me surpreendo, pois adoro “coincidências” ou “sincronicidades” como preferem outros: o casamento do Antônio e da Virginia foi celebrado no dia 13 de junho de 1860. Meu coração bateu um pouquinho assanhado ou melhor, um pouquinho comovido: 13 DE JUNHO, DIA DE SANTO ANTÔNIO. Como o casamento deles não foi o resultado de uma bela história de amor, mas consequência de circunstâncias incomuns e inesperadas, fico olhando para a imagem do Santo e parece até que ele deu uma piscadinha de olho para mim... arranjo dele, o casamenteiro? Sabendo por que e para quê? Eu, hem?
Mas o que quero contar hoje é que o casal recebeu de presente, tão logo chegou ao lugar em que surgiria nossa cidade, um exemplar do “Dicionário de Medicina Popular”, de Pedro Luiz Napoleão Chernoviz, doutor em Medicina, cavaleiro da Ordem de Cristo, “em que se descrevem em linguagem acomodada à inteligência das pessoas estranhas à arte de curar......” A edição em minhas mãos é a segunda, de 1.851.
Deitei e rolei deliciando-me com o livro, preciosidade que me foi confiada por empréstimo, e que é um dos tesouros da Fazenda Santo Antônio (ele, de novo), em Barra Longa, portanto parte do Caminho de São José. São proprietários do hoje belo hotel/fazenda o casal Maria do Carmo Gomes e Estevam Quintino, ela minha prima. Eu os chamo de Baronesa e Barão porque ele, realmente, tem em sua ascendência o Barão de Saramenha. E mulher de barão é baronesa, claro. A fazenda deles, magnificamente decorada por Sua Alteza, a baronesa Dudu, por si só justifica vir gente de longe conhecer Barra Longa, Rio Doce, o Caminho de São José.
Aliás, estamos, nós os barralonguenses e riodocenses, perdendo tempo e oportunidades. O desastre que adoeceu nossa região, provocado por culpa sabemos todos de quem, se devidamente “explorado”, poderia ter trazido centenas de turistas ao Caminho de São José, para testemunhar e lamentar suas consequências. Ninguém os convidou nem se preparou para hospedá-los. Foi uma catástrofe de repercussão internacional!
Voltando ao assunto, o livro do Chernoviz se tornou objeto de estudo do Antônio e da Virgínia que, esclarecendo honestamente não serem médicos, atendiam e tratavam de muita gente que os procurava. Com o livro na mão, claro...
Para você, leitor amigo, agradecer a Deus não ter vivido naquela época e para esta história não ficar comprida demais, vou copiar só cinco receitas do livro.
1.“... se os sintomas têm alguma intensidade – a doença é diarreia – e o pulso é forte e frequente, é preciso recorrer à sangria, ou ao menos aplicação de bichas na boca do estômago.”
2. “uma senhora devia submeter-se a uma operação muito simples: abertura de uma postema. Estando tudo disposto para a operação, o doutor pôs debaixo do nariz um lenço sobre que tinha deitado 15 a 20 gotas quando muito de clorofórmio. Apenas a doente tinha feito algumas aspirações, quando exclamou com voz gemente : estou sufocada!” Como diz o Nélson da Capetinga, MOrreu...
3. “Os clisteres são de um uso tão vulgar, de uma utilidade tão geralmente reconhecida, que não é necessário acumular razões para usá-los. Basta dizer que a administração de um clister de água morna simples, desembaraçando o intestino das matérias que o entupiam, distendiam, constrangiam suas funções, retinham enfim na sua cavidade gases nocivos, restabelece a liberdade do ventre, acalma a sua irritação e produz um alívio instantâneo.”
4. “A comoção é um abalo produzido por uma queda ou pancada sobre a cabeça....... quando a força do pulso está restabelecida, é preciso praticar uma sangria e aplicar bichas atrás das orelhas.”
E para terminar:
5. Depois de muitas explicações e recomendações sobre o “ardor no ourinar”, Chernoviz ensina: “às vezes é preciso aplicar seis a dez bichas se o ardor no ourinar persistir a todos esses meios que acabo de indicar.”
Paro por aqui, resistindo à tentação de ensinar, Chernoviz na mão, como, por que e para quê aplicar algumas bichas ao redor do ânus, órgão que eu, pudica e higienicamente, prefiro chamar de portão dos fundos...
Daqui a uns dias, tem o outro caso.