Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 11/08/2017 às 15:42 horas                              

# Lobrobô

Quando converso com algum riodocense, é comum que lhe fale do pé de piabana que tenho em minha casa, em eugênia e em lobrobô. Piabana, a árvore ou o fruto, me foram “apresentados” por dois irmãos que passaram a infância em Rio Doce, o Jésus e a Madalena. Para eles, especialmente o irmão, o frutinho, que lembra um ovo de passarinho, era uma das delícias deste mundo, coisa do tipo de ambrosia, reservada apenas aos deuses gregos em seu céu.

É em homenagem a esses irmãos que meu pé de piabana enfeita meu jardim. Dá flores brancas e simples, nenhuma belezura, mas o que enfeita a árvore é a quantidade delas, que estão sempre presentes, o ano inteiro.
Que não me censurem os irmãos, mas, para mim, o gosto do frutinho é de uma falta de graça danada, talvez porque eu não tenha vivido minha infância na terra natal...
Eugênia é um tipo de jambo, arroxeado por fora. Ganhei uma muda uma vez, de Neném Palermo. Distraído e involuntariamente mal educado, esqueci na casa dela o vaso com a muda.
Já o lobrobô começa a “emparelhar” com a piabana em minhas conversas pelo fato de nenhum dos dois nomes constar dos dicionários. Pelo menos dos que eu tenho (e são muitos).
Com os modernos meios de comunicação uniformizando quase tudo, inclusive nosso modo de falar a última flor do Lácio, quase todo mundo chama de ora pro nobis a espinhenta planta de folhas suculentas e muito gostosas (além de muito ricas em proteínas, como dizem os estudiosos).
Enquanto nas cerimônias católicas se usava a língua latina, imagino e aposto que 98% dos fiéis não entendiam quase nada, mas todo mundo sabia que ora pro nobis significa “rogai por nós”.
Inventam lendas (até nos dicionários) para explicar a razão do nome estrangeiro dado à planta. Deixa prá lá...é outro assunto.
O que me interessa aqui e agora é lembrar que, em nossa região, o latinório não conseguiu (ainda) derrubar o LOBROBÔ, que é assim que nós continuamos a falar ... e a comer, com angu, costelinha, feijão, frango...
É aqui que quero chegar...
Por que lobrobô?
Onde e a quem perguntei, inclusive especialistas, não encontrei resposta.
Pois estava eu posto em sossego, como a linda Inês , (obrigado, Camões), folheando um livro do professor Aires da Mata Machado Filho (O Negro e o Garimpo em Minas Gerais) – negros/escravidão em Minas Gerais/garimpos são assuntos que me atraem – quando, acho, fiz uma descoberta que vale tanto quanto um pepita graúda de ouro!
Vou encurtar muito: escrevendo sobre o linguajar dos moradores quase todos negros de São João da Chapada, nas vizinhanças de Diamantina, o ilustre professor Mata Machado cita dois vissungos (cantoria dos negros, com palavras africanas e portuguesas).
Um é a história de uma negra mina que lamenta porque algum viajante passou perto da casa dela e botou fogo na plantação, queimando o lobo-lobô que ela comia...
Este é assim:
“Ai, passagêro quemou campo, auê!
Lobo-lobô ta quemano, auê!
Oia, mãe mina tá chorano, auê!”
Ai! omboê, aí!
Ai, omboá, ê!
Ê... rê-rê... ê”

 

O outro vissungo é assim:
“Orossangi
Cum galinahá
Cum quimbombô
Cum lobo- lobô
Barundo uê iá
Barundo uê ererê”

 

O professor explica que esse vissungo é uma cantiga irônica referido-se à comida do patrão: galinha com lobo-lobô. Segundo o professor, os negros cantam a mesma coisa no dialeto deles e em português.
Galinha com lobo-lobô: comida boa do patrão, a que o escravo dificilmente teria acesso.
Alguém do Caminho de São José duvida que esse lobo-lobô seja o nosso lobrobô?
Ah! Mina é uma etnia africana, gente que entendia de mineração em sua África de origem e, por isso, especialmente as negras, muito valorizadas pois carregavam a fama de dar sorte aos mineradores.

 

José Alberto Barreto
3/junho/2017