Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 07/06/2017 às 11:07 horas                              

# Sabia que gosto muito de você?


Deve ter sido por volta de 1998, por aí. O bobão aqui se esqueceu de anotar a data. Estava começando a aprender a lidar com computadores e, assim como quem quer treinar, resolvi fazer um álbum para a menina bonita que conheci em 1961 e que, desde então, anda de mãos dadas comigo. A ideia era colecionar bilhetes que lhe mandei pela vida afora e que ela, carinhosamente, guardou, e alguns versos que, sempre para ela, andei rabiscando.
Fiz uma espécie de apresentação em que tentei ser engraçado. Assim:
“Inscrições rupestres; hieróglifos; rascunhos da bíblia e de outros livros sagrados; restos recolhidos por arqueólogos em busca de luz sobre antigos grupos humanos; descobertas casuais; palimpsestos perdidos em gavetas de armários de antigos mosteiros; análise de lendas;escritos de poetas e prosadores de todos os tempos, latitudes e longitudes, tudo isso mostrou à humanidade sonhadora e romântica (embora violenta) histórias de amor de que a do casal Romeu e Julieta é uma das mais conhecidas.
Legamos à posteridade, agora, resultado também de longas e penosas investigações, estes apontamentos sobre um casal que deixa os Romeus e as Julietas conhecidas com complexo de inferioridade
Sabe-se que ela nasceu na ignota Ibytira, na região de cerrados entre os Rios Paraopeba e São Francisco.
Seu nome é Míriam, Maria.
O nome dele se perdeu. Sabe-se apenas que era um Zé, mais um entre milhões de Josés por aí afora. É descendente de antigos moradores das margens do Rio do Carmo, natural de Rio Doce, lugarejo a que se chega por caminhos que também levam a Xopotó, Fazenda do Marimbondo, Santana do Deserto...
Leiam os apontamentos, mas não mostrem nada a poetas, escritores e gramáticos: eles ficariam horrorizados!
(Universidade Rural de Santa Inês)”
O primeiro bilhete preservado foi assim:
“Minha Míriam,
como posso agradecer a você por um ano e onze meses de alegrias, felicidade, tranquilidade e amor?
Ofereço-lhe, em troca, todos os sorrisos de Patrícia hoje!
Será que serve?
Vamos jantar fora hoje, para não perder o costume.
Sabia que eu gosto muito de você?
28/5/1969
Só para esclarecer,Santa Inês é o nome do bairro onde morávamos, e Patrícia nossa primeira e então única filha. Mais quatro vieram depois.
E, para encerrar estas mal traçadas, um dos poeminhas:


INTIMIDADE
Quero dizer-lhe baixinho
Que um dia desses, sozinho,
Eu senti você comigo
Com tamanha intensidade,
Que pude ver nossas vidas,
A minha vida e a sua,
Como pura intimidade...
Nos vi, os dois, tão unidos,
Que nem sei como explicar:
Algo assim como o mar e o marulho
Ou como o luar e a lua.
(José Alberto Barreto)