Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 07/06/2017 às 11:07 horas                              

# Deixa a vida me levar

J.A. Barreto

A cidade de Rio Doce, permitam-me ser repetitivo, se tornou um pouco minha depois que me interessei por genealogia e me pus a pesquisar. Antes, a terra natal que eu deixei talvez antes de completar oito anos, havia se tornado apenas um dado em minha certidão de nascimento. O gostoso “recheio” riodocense, para mim, eram muito mais os casos ouvidos dos mais velhos que lembranças e vivências pessoais. Acima de tudo, eu já com quase sessenta, as histórias da infância de Jésus e Madalena, irmãos menos jovens, que viveram essa infância na terra natal que é minha, mas não deles, barra-longuenses os dois, mas chegados a Rio Doce ele com quatro, ela com três anos de idade.
Casos de Madalena, principalmente, que, de todos os meus muitos irmãos e irmãs, foi a que mais se “grudou” em minha vida, companheiros que fomos de magistério e outras “aventuras”, vida afora.

O mundo não parou de girar. O Brasil atolou sob a direção incompetente de criaturas inescrupulosas que, agora temos certeza, se enriqueceram à custa de nossas mazelas. Estão começando a ocupar suas celas na cadeia, os meios de comunicação nos mostram a toda hora...
Começava novembro do ano passado e Madalena , para espanto meu (embora ela tenha vivido 88 gloriosos anos!) me larga falando sozinho e parte para o que eu chamo, faz tempo, de o “mundo do enorme silêncio”. Não quis vê-la morta, mas ajudei a levar o caixão pelas alamedas do cemitério do Bonfim, que nunca me pareceram tão compridas. Sem ela, Barra Longa e Rio Doce se tornaram definitivamente passado para mim.
Quatro dias depois da morte, o terrível acidente emporcalhou e ameaçou matar o Gualacho do Norte, o Carmo e o Rio Doce, panoramas nossos nos últimos trezentos e poucos anos, motivos de nosso encantamento ao fuçarmos juntos livros antigos e arquivos. Ah! Como teríamos assunto para rir e chorar.
Sozinho, sem Madalena, não dá para rir; sozinho, já chorei tudo a que tinha direito.

O Brasil reelegeu e “dispensou” a, para mim e peço desculpas a quem vê as coisas de outro ângulo, ridícula “presidenta”. Os americanos surpreenderam reelegendo aquele sujeito “diferente”. A União Europeia, que parecia utopia e sonhos seculares duramente concretizados, ameaça desmoronar. A Síria, de onde vieram também ascendentes de riodocenses, parece reedição de pesadelos que imaginávamos definitivamente sepultados. Americanos e russos jogam suas bombas em casas alheias, velha história maldita.
Ir a Barra Longa e, especialmente, a Rio Doce, com Madalena e Jésus, para mim parecia uma visita à casa paterna, como a da poesia. Hoje, vejo que não era bem assim. Ausente o Jésus, Madalena era a bengala que me dava coragem de lá voltar. Sem ela, não há porta riodocense em que eu possa bater. Quero voltar mais uma vez, prometi a mim mesmo, para não morrer sem ter presenciado a quase agonia e a lenta recuperação de meus rios. Porque esses rios são meus também, não só do menino que mora em mim, mas do velho pesquisador em que me transformei. Tentarei continuar escrevendo. Aliás, essa minha irmã saudosa terminou assim o comentário que fez para meu livro “77 Poemas (com licença dos poetas de verdade)”:
“Não pare nunca de escrever!”.
Tou obedecendo. Mesmo sabendo que quase ninguém vai ler nem se interessar por meus escritos. Ainda mais agora, quando todas as bibliotecas do mundo estão à disposição nas maquininhas que carregamos nas mãos, nas bolsas ou nos bolsos.
Indiferente até onde essa indiferença é possível, à Coréia do Norte, à Síria, ao Afeganistão, ao Paquistão, ao Paquistão, a sunitas e xiitas se explodindo e uns aos outros, menos ainda a quase desconhecidos países africanos onde o sangue rola como rios, não dando a “impeachment” e lava-jatos mais que o apoio moral e virtual de que ainda sou capaz, minha vidinha continua, sei lá por quanto tempo mais. Ninguém sabe, mas minha chocadeira elétrica continua trazendo pintinhos, especialmente garnisés, aos quintais sobreviventes em casas de amigos e parentes; três enormes jabuticabeiras continuam atraindo turistas à minha humilde mansão; um bosque de nove jabuticabeiras, cultivadas juntas em um xaxim para não crescerem, também ; meu pé riodocense de piabana precisou ser podado, pois ameaçava ficar mais alto que a casa; às vezes, recebendo visitas, vou ao quintal colher chuchus, pimentas, couves, alecrim, salsinhas e cebolinhas, que levam como presentes...
Dando graças a Deus por não ver nem ouvir bombas explodindo sobre a minha cabeça e a de meus parentes e amigos, bato papos prolongados, quase tertúlias, com São José de Botas, Santo Antônio de Rio Doce, de Lisboa e de Pádua, e Santana, seu marido e sua filha que, tenho certeza, continuam vigilantes sobre o Caminho de São José e suas possibilidades.
Como ensina Mário Quintana, logo, logo chegará minha vez de partir e o mundo, sem nem notar minha saída, continuará vendo políticos ladrões, criaturas do bem fazendo milagres, chuva e seca se alternando, Belo Horizonte belíssima com suas paineiras e ipês, gramados ora muito verdes ou com um amarelado meio sem graça, cruzeirenses e atleticanos se divertindo e “insultando” mutuamente, meu Galo procurando um dia voltar a ser campeão brasileiro.
Ninguém dará falta de mim.
E se alguém perguntar por José Alberto Barreto, com certeza as respostas serão no máximo duas perguntas:
- José Alberto Barreto? quem?