Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 20/11/2017 às 16:11 horas                              

# Um padre de Rio Doce

 


A vida de cada um de nós é cheia de mistérios, surpresas, encontros, desencontros e sempre ligada à de outras pessoas.
Algumas dessas ligações são permanentes, parecem eternas, não fosse a vida de todos nós tão pequena no tempo, tão fugaz.. . outras dessas ligações são realmente superficiais, embora às vezes marcantes, aparentando importância muito grande mas com a beleza e a brevidade de bolhas coloridas de sabão.
Ligações que parecem não se desfazer nunca e ligações que não conseguimos explicar porque não se solidificaram e se desfizeram com tanta facilidade.
Cada um de nós poderia encontrar exemplos em sua história pessoal. Eu também, claro.
Querendo acreditar em outras vidas, em vidas sucessivas após a misteriosa morte do corpo físico, mas permanente e involuntariamente cheio de dúvidas, fico às vezes pensando por longos períodos em pessoas que, fora do círculo mais restrito de pai/mãe/irmãos/filhos/sobrinhos, marcaram muito minha própria vida: a professora primária (praticamente só tive uma), até hoje sempre presente; um professor de português no antigo curso chamado ginasial; alguns colegas dos tempos de estudante e colegas de profissão; dois padres, vigários em meus tempos de criança...
... e um padre nascido em Rio Doce, meu primo.


Um pouco mais novo que eu, quase não convivemos, acho que nunca nos assentamos para conversar. Na juventude dele, seminarista, adoeceu e passou uma temporada em uma casa de saúde, vizinha de onde então eu morava. Visitas eram proibidas, mas estive lá com ele uma ou duas vezes para levar-lhe agrados de minha mãe, visitas muito rápidas; tendo se curado, voltou para o seminário e, de novo, desapareceu para mim. Tinha notícias esparsas e pouco detalhadas: ordenação, em Mariana: as primícias de sua atividade como sacerdote católico; vigário em uma paróquia em Ponte Nova e outra, mais tarde, em Belo Horizonte; abandono do sacerdócio secular e admissão na grande irmandade dos franciscanos; palestrante; morando em Uberlândia, em Governador Valadares, aqui, ali... só notícias vagas.


Trouxe-o à minha vida quando me casei e o convidei para celebrar a cerimônia religiosa. Combinamos que batizaria meus filhos (se viessem), mas isso só foi possível no batizado de um dos cinco... em que, curiosamente, não estivemos presentes, minha mulher e eu, aparentemente intoxicados por algum alimento contaminado.
E o tempo não parou, às vezes correu, às vezes disparou.
Meu primo, antes de completar oitenta anos, partiu para o “lado de lá”, para o que eu chamo de “mundo do grande silêncio”.


Fui à cerimônia fúnebre e às homenagens de seus irmãos franciscanos, cerimônia e homenagens belíssimas, como é comum na liturgia católica. Cumprindo velho hábito meu, preferi não ver o corpo no caixão, mas comovido, chorei e participei emocionado de parte da cantoria em latim, que decorei ainda criança e nunca esqueci...
Foi a vida toda, e morreu sem deixar de sê-lo, um quase estranho para mim.
Que haja vida após a morte! Que receba a recompensa a que tem direito: sacerdotes sempre fazem um bem enorme, mesmo com as limitações impostas a todo ser humano. E a bondade de nosso Pai Maior não tem limites.
Que a gente possa um dia se encontrar, se conhecer, se tornar amigo, não apenas primos, padre Flávio Trindade, filho de minha tia Nega, irmão da querida prima Pilar, sobrinho de minha mãe.
Mais um padre riodocense.