Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 16/10/2017 às 15:42 horas                              

# Pedido de Natal

J.A.Barreto



Eu vou fechar os olhos e tentar dormir.
Dormir rezando a Deus para sonhar.
Sonhar que eu sou de novo um menininho.
Que o natal, mais uma vez, já vai chegar
E à missa à meia noite minha mãe vai me levar.
Eu quero no meu sonho uma chuvinha
Fininha, muito fininha.
Daquelas chuvinhas bem frias,
Que caem dias e dias
Fazendo poças e barro no chão.

Quero sujar na poça e barro meus sapatos.
Sentir meus pés bem frios e molhados.
Quero andar olhando as poças para não cair
E nelas ver a luz do poste refletir.
Quero ouvir a minha mãe recomendando:
- Cuidado com a cabeça para não molhar!
Muito cuidado para não escorregar!
E abraçado com uma minha irmãzinha
(Para nós dois existe só uma sombrinha),
Vou caminhar na chuva satisfeito.

Na igreja, eu vou logo dar um jeito
De ficar bem pertinho do presépio.
Eu quero ouvir o sino repicar:
Bem, belelém, belelém, bem, bem...
Bem, belelém, belelém, bem, bem...
E quando o coro, lá no alto, começar,
Cá do meu banco eu também quero cantar:
“Noite feliz, noite feliz!
O Senhor, Deus de amor,
Pobrezinho, nasceu em Belém...”

Eu vou rezar baixinho, bem baixinho:
Eu desmanchei o ninho de um passarinho,
Mas era de pardal, por isso não faz mal.
Um dia, na igreja, eu dei uma risada,
Mas não foi culpa minha, foi culpa da Dolores.
Eu sei que ela é doida, mas é muito engraçada.
E, em compensação, eu trouxe muitas flores
Para enfeitar o altar no mês de maio.
E ajudei a arrumar as barraquinhas,
Colando um montão de bandeirinhas...

Eu vou rezar baixinho, bem baixinho,
Vendo Jesus, olhando o boi e o burrinho:
Daqui pra frente, eu juro, vou tomar cuidado.
(Não juro não, desculpe, esqueci que é pecado).
Depois, pertinho de mamãe, com ela abraçado,
Vou esperar a missa, que começa agora.
Bem, belelém, belelém, bem, bem...
Bem, belelém, belelém, bem, bem...
Pertinho de mamãe, eu vou dormir de tão cansado.
A missa do galo é comprida, não deve ser pecado...

Permita, oh! Senhor, que eu durma um pouco ainda.
Prolongue este meu sonho, estique minha infância.
Que eu seja, mais um pouco, de novo, uma criança.
É este o presente que eu quero,
É esta a graça por que eu espero.
Sentir de novo, nem que seja em sonho,
Presépio em Rio Doce... o frio da chuvinha...
Ouvir o som do sino... ver tudo tão risonho...
Deixe que eu durma um pouco mais, Jesus,
Sonhando com você, sem nem lembrar que existe cruz.
                                
30.novembro.1976