Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 16/10/2017 às 15:42 horas                              

# Tem alguém aí?

Revi na TV, há poucos dias, um programa sobre tentativas de comunicação com habitantes de outros mundos, no universo sem fim.
Como se nós, os humanos, com um megafone na boca, gritássemos para o espaço: tem alguém aí?
Há projetos, de instituições e de governos e até individuais, com esse objetivo. Alguns conhecidos, alguns ocultos, alguns secretos, alguns supersupersupersecretos... e segura a imaginação!
Pois acabei rindo pensando que, ao divulgar minha idéia do Caminho de São José, foi como se fizesse algo parecido, para um mundo semidesconhecido para mim: tem alguém aí?
Pois tinha... vieram respostas de onde eu menos esperava! de um morador de São Paulo, nascido em Visconde do Rio Branco, com mais de noventa anos de idade, escritor, poeta e magistrado aposentado, de sobrenome Barreto também. Acabei descobrindo que somos parentes: meu trisavô, Francisco Barreto Falcão (filho) era irmão do trisavô dele, Gonçalo Gomes Barreto; de uma senhora do Paraná, dizendo ser devota de São José, de Santo Antônio e de Santana e manifestando o desejo de percorrer de carro o Caminho... façanha, por enquanto, ainda impossível (ou quase!), por causa das péssimas condições do trecho entre Barra Longa e a Fazenda Porto Alegre; de um antigo ferroviário riodocense, que mora há muito tempo em São Paulo, hoje meu amigo e correspondente... de alguns outros.
Mas resposta comovente, mesmo, para mim, foi de uma então adolescente, que me escreveu várias cartas. Com trechos assim:
“ o senhor não me conhece... mas eu venho conhecendo um pouco do senhor pelos livros escritos por ti, encontrados na Biblioteca municipal de Barra Longa, cidade que o senhor comenta em seus livros como contos de fadas... pena não ter lido antes...”
“... quando li uma de suas histórias no Caminho de São José, ... quando vi passei por todo o livro como se estivesse sido tomada por uma força que me levava a todos os cantos dos lugares citados por ti...”
“... e por falar em Rio Doce, conheço a cidade, é muito bonita, mas depois que li o seu livro, vejo Rio Doce ainda mais bonita e delicada, como também vejo Barra Longa...”
“... porque se eu souber que o senhor ficou rico, coisa que pode acontecer em um desses fins de semana, com as megas e super senas da vida, eu lhe escreverei de novo para saber quando iremos dar início à nossa ONG e por em prática todos os seus planos...”
O nome da estudante barralonguense? Lucinéa de Paula Batista.
Escreveu-me outras cartas. Contou-me, na última, sua alegria por estar grávida, os preparativos dela e da família para a chegada do primeiro filho.
Uma das poucas, pouquíssimas vozes em Barra Longa a responder ao meu “tem alguém aí?”
 Expliquei a ela, mais de uma vez, que a gente não deve ter pressa de ver sonhos realizados, alguns podem exigir mais de trezentos anos para germinarem...
Lucinéa deixou seu filho aos cuidados da avó e de parentes: partiu deste mundo, completamente “fora do combinado”, como diz Rolando Boldrin, por complicações após o parto.
Não a conheci pessoalmente.
Mas tive tempo de contar a ela que a Barra Longa e a Rio Doce permanentes, de nossos ancestrais ontem, nossas  hoje  e de nossos descendentes amanhã, continuam insistindo na pergunta e à espera de respostas, especialmente de seus estudantes.
 Para ficar bem moderninho, insisto:
 - Tem alguém aí, galera?

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Usando de meu direito de avô, e já que comecei falando de “outros mundos”, conto uma “gracinha” de Clara, minha neta de cinco anos. Mostrei a ela Vênus no céu. Perguntei: está vendo aquela estrela? e ela, que já havia “estudado o assunto” no Colégio:
- Não é estrela, vô. Vênus é um planeta. Lá não tem ar, não tem água, nem comida. Ninguém mora lá. Só os “nininígenas”...