Rio Doce Terra
                                                 
Atualizado em: 20/11/2017 às 16:11 horas                              

# Saramago

Descobri, faz muito tempo, que muitas pessoas que citam escritores famosos nunca leram nada... nem dos famosos nem de ninguém. Mas isso costuma impressionar quem escuta.
Já nem falo em Dom Quixote e seu escudeiro, ou em Alice, a do país das maravilhas...
Grande Sertão Veredas? O tanto de semialfabetizados que o “devorou” e que “arrota” sabedoria e cultura citando seu autor...
Nunca antes, na história deste País de tantos legisladores tiriricas e executivos titicas, tanta gente conheceu, e como! o João Guimarães Rosa!!! E o Saramago, então?
Comecei a ler o prêmio Nobel português mais que algumas vezes. Não conseguia ir muito longe, desistia: areia demais para meu caminhãozinho.
Vou tentar, mais uma vez, tornar-me leitor do Saramago, porque um amigo do peito me enviou um e-mail com citações do famoso autor recentemente falecido. Uma dessas  me tocou particularmente:
 “Quando eu morrer, vão-se deste mundo duas criaturas, eu e o menino que eu fui”...
  O menino Saramago não conheço (ainda), mas o  que eu fui nasceu e viveu em Rio Doce... e sempre  me acompanha. Me acompanha? Nunca me largou e tenho a impressão, muitas vezes, de que ele, o menino, já assumiu o comando há muito tempo. Quem o acompanha sou eu... Quem manda em mim, é ele!
Um de meus Mestres ensina que o paraíso terrestre é o tempo da infância!
 Dá licença, Saramago?  Como você e seu menino, vamos deixar juntos também este mundo, o Dodão e eu...
Isso explica e vai clareando, para mim, muita coisa: uma sensação de voltar e estar em casa, mesmo desconhecido e desconhecendo, quando visito a terra natal; uma presença de pessoas que lá não estão e que eu, talvez, nem tenha visto nunca; uma vontade impossível de reencontrar parentes e não sei o quê; recordações de fatos que nem sei se realmente vivi; arrepios ao ver a estação ferroviária, o grupo escolar, ao entrar na igreja, ao visitar o cemitério, ao ver, do alto, Rio Doce adormecida, num silêncio acolhedor que o cantar de  um  ou outro galo quebra às vezes; acima de tudo, uma alegria inexplicável, de menino bobo,  que, sozinho em um canto, se sente como o filho daquela história bíblica, que retornou e foi recebido com perdão e festa.

(Nasci com excesso de fofura, como dizia minha caçulinha. Meu pai, carinhoso, me chamava de Gordão e minha irmã, começando a falar, me chamava de Dodão).
José Alberto Barreto
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