Rio Doce Terra

# Caetano Cenachi

José Geraldo Drummond Cenachi

 

No início do Século XIX, a Europa, graças ao avanço da medicina, teve uma significativa diminuição da taxa de mortalidade infantil.


Consequentemente, houve um aumento da população, o quê gerou a necessidade de uma evolução do sistema produtivo que, até então, era artesanal. Os artesãos, com ferramentas simples, trabalhavam normalmente com matéria prima própria, o quê não permitiu atender o crescimento da demanda decorrente desse avanço na área da saúde. Este desequilíbrio fez nascer na Inglaterra a Revolução Industrial. A Itália atrasou-se em acompanhar essa evolução por vários motivos: tinha um bom rebanho de gado e ovelhas, o que gerava  uma certa folga econômica; outro fator que contribuiu significativamente para isso foi um  menor crescimento de sua população, decorrente de uma característica do Rio Pó. O Rio pó, que percorre 652 Km do ocidente para o oriente, ao Norte da Itália,  é o maior rio da região e passa por muitas cidades importantes. Por ocasião das cheias, este rio subia muito o nível. Ao voltar ao seu nível normal, formavam-se muitos lagos de água parada ao longo do seu leito. A proliferação do mosquito transmissor da malária era inevitável, razão pela qual houve um crescimento menor da população, devido à mortandade que essa doença provocava. Nessa ocasião, a Itália não era unificada. Tinha uma divisão territorial rígida, formada por pequenos estados.  Os estados dificultavam ao máximo o intercâmbio entre eles. Por exemplo, os dialetos chegavam quase a ser outra língua e a circulação de pessoas entre os estados era dificultada ao máximo.  Por conta desses detalhes, Mussolini, o qual fez um bom Governo, apesar do gravíssimo pecado de se aliar a Hitler, disse a celebre frase: “Governar a Itália não é difícil, é inútil”(Benito Mussolini)


Dentro desse contexto, por volta de 1850, a família do nosso bisavô, Caetano Cenachi, sofreu um rude golpe: a morte de sua mãe. Eram 9 filhos, todos homens e  Caetano era o mais velho. Pelas circunstâncias aqui descritas, não fica difícil imaginar a complicação trazida para uma casa de onze pessoas com a perda da matriarca, onde todo o serviço da casa era feito por ela. Passado o estado de choque, em torno de uns trinta dias, o patriarca reuniu os filhos e foi direto à questão: a casa precisava voltar a funcionar e nenhum dos filhos apresentava-se preocupado com isso.  Significava que alguém precisava se casar. Se nenhum deles se dispusesse a isso, Caetano o faria. O patriarca, muito positivo, foi curto e grosso. Precisamos de uma mulher para cozinhar, lavar roupas e cuidar da casa. Nosso bisavô, homem de fibra e bom senso, não se fez de rogado e logo se apresentou: - a casar o senhor, caso eu. Sou o mais velho e entendo que a obrigação é minha. O pai dele então completou: - Tem trinta dias de prazo... Assim, saiu meu bisavô à procura de uma esposa. Passava nas casas onde sentia que tinha moça na idade de se casar e fazia a propostas. Como era de se esperar, as respostas eram sempre um não. Já desanimado, viu à beira de um riacho, uma donzela lavando roupas. Aproximou e foi logo ao assunto: - quer casar-se comigo? A moça olhou, achou esquisito mas topou. Aí ele falou: - Mas tem de ser para antes do Natal. Ela então respondeu: aí não dá, não tenho nada arrumado, não estava pensando nisso, tem de dar-me um prazo maior. Ele então respondeu: - sendo assim vou mais à frente.  Se não achar outra, volto para fechar o negócio. Como não estava fácil, logo desanimou de procurar outra, voltou e casou-se com a nossa bisavó, Gertrudes. Ela, jovem e com muita saúde, a família, imediatamente, começou a crescer. Nasceu vovô Henrique, primeiro filho do casal! Isso fez cair a ficha: o país não oferecia nenhuma perspectiva que viesse a atender o crescimento da família, o quê era inevitável! Aliás, estavam oferecendo incentivo para a emigração. Não havia outra alternativa e a decisão foi vir para o Brasil. Como até hoje, o italiano não é nada organizado e muito menos planejador. Tudo improvisado, saiu o Caetano, sua esposa Gertrudes, seu filho Henrique com 2 anos, seus irmãos Afonso e Humberto para o porto de Gênova, onde de lá viriam para o Brasil com o propósito de trabalhar em lavoura de café. Tio Silvio gostava de contar que no porto de Gênova, o menino Henrique perdeu-se e os familiares demoraram  muito tempo para achá-lo. Podemos concluir daí que vovô Henrique pode não ser um CENACHI.  Não se preocupem, pois já fiz as minhas pesquisas sobre o assunto e constatei que este detalhe era apenas mais uma das histórias inventadas por Tio Silvio para provocar vovô Henrique. Tio Silvio, filho do maior fazendeiro de Rio Doce e vizinho de vovô Henrique, não saia de lá. Eram muito amigos, gostavam de conversar e todos os dias jogavam truque. Dessa amizade que talvez tenha surgido o casamento dele com tia Joaninha. Como tia Joaninha era muito mais nova, ele gostava de contar que quando iniciou esta amizade, tia Joaninha ainda usava fraldas e ele brincava muito com ela nestes trajes. Provavelmente outra história para fazer raiva nos envolvidos.