Rio Doce Terra

# Família Cenachi

José Geraldo Drummond Cenachi

 

A partir da década de 1870, os italianos deram início a um processo expressivo de imigração para o Brasil, impulsionada pelas transformações sócio-econômicas em curso naquele País, o que afetou, sobremaneira, a propriedade de terras.


Um aspecto peculiar dessa imigração em massa ocorreu pouco após a unificação da Itália, razão pela qual a identidade nacional desses imigrantes no Brasil foi forjada em grande escala. Na Europa, paralelamente a esse processo, ocorreu uma intensa expulsão demográfica. Aliado ao também processo acelerado de industrialização, o alto crescimento da população naquele Continente afetou diretamente as oportunidades de emprego.


A Nação Brasileira também passava por um processo revolucionário, através da fermentação das idéias abolicionistas da escravatura, apoiadas, em grande parte, pelos políticos, intelectuais e jornalistas da época. Em 1850, foi criada a primeira lei que marcou o início do processo de abolição da escravatura, proibindo o tráfico de escravos africanos.  A partir deste momento, surge a falta de mão-de-obra nas zonas cafeeiras, limitadamente resolvida com a importação de escravos da Região Nordeste do Brasil. A vinda desses cativos para as zonas cafeeiras não resolvera o problema, pois o número de escravos para atender a essa demanda era insuficiente.


Após o fim das Guerras de Unificação da Itália, a economia italiana, associada ao problema da alta taxa demográfica e de desemprego, encontrava-se muito debilitada. Os Estados Unidos, seu maior receptor de imigrantes, passaram a criar barreiras à entrada de estrangeiros. Tais fatores, a partir da década de 1870, levaram ao início da maciça imigração de italianos para o Brasil.


O Estado de Minas Gerais  tornou-se um dos maiores redutos da colônia italiana. A imigração ficou dividida em dois segmentos: o de colonos agricultores, que foram atraídos para os arredores da Capital, Belo Horizonte/MG, e o dos trabalhadores da agricultura cafeeira, atraídos para o Sul de Minas que, em 1900, já somavam cerca de 70 mil italianos.  A província mineira era uma das mais populosas do Brasil e, supostamente, teria população suficiente para substituir os ex-escravos. Contudo, eram poucos aqueles que queriam permanecer no meio rural. Em decorrência disso, Minas Gerais abre suas portas aos imigrantes das várias regiões da Itália, sobretudo após 1888, ano da abolição da escravatura.  


A vizinha São Paulo, ao contrário do que sucedeu em Minas, que conduziu os italianos a ocuparem os lotes de terras adquiridos por eles próprios ou doados pelo Estado, levou-os para trabalharem nas lavouras das fazendas dos Barões do Café.   Nessa ocasião aportava, no Rio de Janeiro/RJ, a família Cenachi, composta por Caetano Cenachi, meu bisavô, acompanhado da esposa Gertudes e do filho Henrique, juntamente com mais dois irmãos: Humberto, casado, e Afonso, solteiro.  Encaminhada para o escritório de imigração em Ponte Nova/MG,  Caetano Cenachi, por possuir grande vocação para a lavoura, foi escolhido por uma importante fazendeira de Rio Casca/MG. Ela chamava-se Donana Mendes e sua fazenda tinha o nome de “Raso”. Além de ser experiente lavrador, Caetano era visivelmente um homem íntegro, o que acabou levando-o a ficar como “terreireiro” da sede da fazenda de Donana, prestando-lhe serviços como acompanhante das suas filhas, levando-as ao Colégio em Ponte Nova/MG e/ou em viagens. A sua integridade moral levou-o a desempenhar também  o papel de protetor da família contra os mal feitores; a cuidar da tulha, lugar onde normalmente se armazenavam as colheitas; de tratador de porcos e dos demais animais. Dentre tantas tarefas de confiança, lembro-me de vovô Henrique contar que uma das atividades que lhe causava mais sofrimento era levar às filhas da fazendeira as frutas colhidas na fazenda, carregando em seu próprio lombo, tal qual a um escravo, um balaio cheio delas. Sei também que a fazendeira tinha um filho da mesma idade do vovô Henrique. Da convivência na fazenda ficaram muitos amigos e este amigo, mais tarde, tornou-se deputado. Era o Médico João Camilo Mendes.


Vovô, depois de muitos anos, já velho, esteve em um emocionante encontro com seu amigo João Camilo, proporcionado pelo tio Silvio. Não tenho conhecimento de mais nenhuma estória da vida do vovô passada na fazenda de Donana. Ele só veio a sair de lá porque comprou seu próprio terreno, ao tomar conhecimento de que havia em Rio Doce/MG, duas propriedades à venda: a Graminha e o Sitio das Perobas. Não comprou a Graminha, apesar de ter condições financeiras para tal. Acabou ficando com o sítio “Perobas”, mudando-se para lá. Esta propriedade pertence hoje a seus netos, herdeiros de Antônio Cenachi. O Sítio, embora pequeno, era auto-suficiente para criar uma família, desde que o seu proprietário tivesse competência.  Isso era o quê não faltava ao nosso exemplar bisavô, CAETANO CENACHI. Como primeira providência, ele construiu uma casa para acomodar a família. Era pequenininha, mas igual ao coração de mãe, aconchegante, e couberam todos. Lá vovô criou toda a sua grande família, acolheu aos seus netos que logo tiveram de sair da roça para frequentar o Grupo Escolar em Rio Doce/MG. O sítio Perobas vivia cheio de gente e todos se lembram de lá com muita ternura e alegria. Aliás, todos os casos que ouvi de lá foram sempre muito agradáveis e festivos A família era muito carismática, hospitaleira, amorosa e a alegria no trabalho para eles era igual à de uma criança quando levada  a um parque de diversões.


Gertrudes, esposa de Caetano Cenachi, nossa bisavó, nasceu em 28/03/1863 e morreu em 1944, já bem esclerosada. Era uma mulher e tanto, como gostavam de dizer seus netos. Muito trabalhadora, vivia para a família. Era benzedeira, parteira, boa cozinheira, muito caridosa e meiga. Seus familiares e vizinhos a adoravam. Caetano Cenachi, nosso bisavô, nasceu em 25/03/1870 e morreu em 1951, também já bem esclerosado, apesar de sete anos mais novo que a nossa bisavó. Ambos morreram na Fazenda do Engenho. Logo que nossa bisavó Gertrudes ficou esclerosada, vovô Henrique levou o casal para morar com ele. A fazenda oferecia melhores condições para as pessoas no estado em que se encontrava.


Humberto Cenachi, irmão de Caetano Cenachi, nosso tio-bisavô, voltou para a Itália logo aqui chegou. Vovô falava dele com muito boas lembranças. Pelo visto, era uma pessoa bem humorada, alegre e amiga. Não sei precisar quanto tempo ficou no Brasil. Queria muito ter filhos, mas sua esposa não conseguiu se engravidar. Por causa disso é que voltou para Itália. Através da troca de correspondências com os familiares que ficaram na Itália, tivera notícias sobre o surgimento de um tratamento muito eficiente que faziam as mulheres engravidar. Segundo Niquinho, filho do nosso tio-avô Antônio, que me contou essa história, esse tal tratamento era feito com leite de coelho. Só sei que Humberto Cenachi, logo que chegara à Itália, sua mulher submetera-se ao tratamento e acabara por  arranjar cinco filhas.


Afonso Cenachi, irmão de Caetano Cenachi, nosso também tio-bisavô, que veio da Itália junto com ele, tornou-se importante comerciante em Rio Doce/MG. Fora aconselhado por seu irmão mais velho, no caso o Caetano, a casar-se. Ao sair para a estrada em busca de uma companheira, era assim que se resolvia este tipo de problema, encontrou-se com Pio Borone que, surpreso por encontrá-lo por ali, perguntou o que estava fazendo. Ele já preparado para a pergunta desse tipo respondeu: - Estou à procura de uma moça boa para casar... Seu interlocutor: - Se você não se importar, tenho filhas em idade para isso e faço gosto e questão que seja com você. O negócio foi fechado ali mesmo e então contraiu núpcias com Maria Borone.  Constituiu família, teve duas filhas, Petronilha Cenachi e Conceição Cenachi. Era um homem muito honesto e trabalhador e, por isso mesmo, seu comércio progrediu rápido. Por volta de 1940, induzido por seu genro, Zé Porte Leão, foi levado a contrair dívidas.  Porém, logo percebeu que não poderia pagá-las. No desespero, tirou sua própria vida por ter ficado envergonhado e sem condições de encarar a sociedade, como também por sentir que não haveria como honrá-las. Até hoje lamentamos esse ato. Após a sua morte, o restante da família mudou-se para Barra Longa/MG, onde permaneceu por pouco tempo. De lá se mudou para Mariana/MG, terra do marido de Pitu (Conceição). Acabaram de criar Conceição, que se casou com um alemão, Amador Jalles. Este trabalhava na mineração de Padre Viegas/MG.  Tiveram muitos filhos. Ele faleceu em 2004 e Conceição em 2005, repentinamente. Pitu teve quatro filhos. Maria José, Rubens, Rui e Maria Helena. Esta última morreu tragicamente afogada na piscina do Colégio Providência quando estava de férias em Mariana/MG. Era estudante de medicina.


Antonio, pessoa extremamente tímida, nascido e criado nas Perobas, teve uma família numerosa. Por conta de sua timidez, não participava da vida social local. Só era visto aos domingos, pela manhã, quando ia à missa. Muito hospitaleiro, sempre nos recebia de braços abertos quando aparecíamos por lá. O casal teve dez filhos: Francisca, Angelina, José, Caetano, Geraldo, Osvaldo, Maria do Carmo, Antonio, Conceição e João Bosco.


Humberto, não gostava de roça e foi trabalhar com seu tio, Afonso, comerciante em Rio Doce/MG. Levava jeito para o comércio e logo ficou independente com sua própria venda. Essa venda, que se chamava a “Milagrosa”, resolvia problemas de suprimento para qualquer família na área de secos e molhados, desde coisas para crianças até suprimentos e serviços para fazenda. Vivia para o trabalho.  Nunca o vi fora das dependências da loja. Seu lazer: jogar “damas” depois de fechar a loja, ver futebol local aos domingos, quando tinha!  E, nas tardes de domingo, sair com sua fulobé (espingarda 22) para caminhar pela linha de trem. Seus filhos: Geraldo, Nadir, Nélio, Maria Nilza, Elizabete, José Celso, Zélia, Humberto, Glória, Maria Helena, Eunice, Maria do Carmo, Gonzaga e Lúcia. Eram 14 filhos.


Ângelo: morreu precocemente, era casado, mas não deixou filhos. Morava na fazenda do vovô Henrique.
Vitorina, única filha, casou-se com Antônio Piovezzani, que se tornou um grande fazendeiro no município de Rio Casca/MG. Tiveram nove filhos: Afonso, Geraldo, Jamiro, João, Caetano, Santinha, Luizinha, Carmem e Marina. Um de seus filhos é o Padre Caetaninho, que chegou a ser diretor do Seminário de Mariana/MG. Hoje é Pároco da cidade de Santo Antônio do Grama/MG. Tio Antoninho Piovezzani, seu esposo, chegou em Rio Doce/MG, levado por seu tio Carlos Moura, proprietário da fazenda do Diniz.  Esta fazenda foi vendida a Chichico, neto de Antônio Agostinho, nosso bisavô, que a vendeu para Armando Carneiro. Logo em seguida, Chichico comprou uma outra fazenda dentro de Barra Longa/MG.


Henrique Cenachi, nosso avô, casado com Maria Carneira, foi uma grande figura.  Seus filhos: Zulmira (Sinhazinha), Joana (Joaninha), Caetano (Caetaninho), Inácio. Henrique (Henriquinho)(faleceu aos 47 anos), filho do seu segundo casamento com Angélica .


Por José Geraldo Drumond Cenachi