Rio Doce Terra

# Sant'ana do Deserto - Breviário sobre sua origem

Fabrício Superbi

 

O artigo a que me proponho é o resumo de uma pequena pesquisa realizada no ano de 2005 e apresentada no Simpósio CeHiLa-Brasil em Goiás.

Os objetivos deste trabalho foram: resgatar parte da memória coletiva sobre a origem do povoado de Santana do Deserto; propiciar a construção de um material que mantivesse "acessa" sua memória e divulgar os festejos que ocorrem todos os anos no dia 26 de Julho.

Sem a pretensão de construir a história total sobre a origem do povoado de Santana tive a oportunidade de consultar várias bibliografias e realizar muitas entrevistas com romeiros e habitantes do local. Contudo, a compilação dos fatos está em construção, pois, há muitas lacunas para se pesquisar.

A origem do povoado de Santana do Deserto, que se localiza nos limites setentrionais da Zona da Mata mineira, no município de Rio Doce, está no século XVIII. Para entender seu contexto é interessante conhecer a lógica da colonização e povoamento do território das Minas Gerais.
Para isto é pertinente enfatizar que o imaginário das pessoas que viveram naquele tempo era construído com misticismo, devoção a santos e fé católica (única religião presente até o momento devido a vários tratados solidificados entre a Igreja Católica e o Estado Português).
Dessa forma, a história local se desenvolve em pilares que partem da efervecência da extração aurífera ocorrido em Vila Rica (atual Ouro Preto) e Vila de Nossa Senhora do Carmo (Mariana). Tal fato trouxe para esta região um contingente de pessoas que se desdobravam em busca do ouro.

Esta busca foi constante na primeira metade do século XVIII devido à necessidade de se descobrir novas jazidas e também pela procura de terras férteis que pudessem abastecer com gêneros alimentícios a região das Minas. Com isto vários povoados, como o de Santana, emergiram. Contudo, é interessante pontuar que o acesso às terras que se localizam na região leste de Minas Gerais, como a Zona da Mata mineira e Vale do Rio Doce eram feitas com altos custos.

Os desbravamentos e as picadas (grandes trilhas abertas em matas fechadas) não eram feitas sem risco de vida, isto, devido aos ataques de índios nativos e o cuidado que se havia de ter com doenças até então pouco conhecidas.

Os ataques de índios eram freqüentes não só na região que veio a consolidar o povoado de Santana do Deserto. No local onde hoje se localiza a cidade de Abre Campo nativos chegaram a incendiar e acabar com uma capela construída também com evocação a Santana.
A esse respeito temos o seguinte relato:
"Dom Frei João da Cruz, por provisão de 15 de outubro de 1741, criou ali uma freguesia com o título de Sant'ana do Rosário da Casa da Casca. Esta paróquia, no entanto não pode manter-se em razão sobretudo de ter sido, quatro ou cinco vezes atacada e uma literalmente arrasada a fogo pelo selvagem botocudo"(TRINDADE, 1962,p.38)

A insegurança de se viver em arraiais como este aumentava ainda mais quando as pessoas tinham que trafegar nos caminhos de picadas, o que favorecia o ataque de nativos.

Veja que há: "dificuldades de caminhos para as Igrejas de S. José da Barra, e Furquim, como são serras muito ásperas para passar, e perigosas, e infectadas de Gentio brabo ... e depois de se estar praticando o determinado nela por tempo suficiente, sobre veyo invazão de gentio daquelle Certão, de sorte que foi necessário os moradores retirarem-se para evitarem o perigo de suas vidas e perda dos bens..."(TRINDADE, 1962,p.40)

Sendo assim, a conquista das terras rumo ao leste de Minas foi efetivada aos poucos. Primeiro tinha que se consolidar um núcleo de povoamento e a partir de então, só quando este estivesse seguro dos ataques de índios é que se avançava rumo a outros desbravamentos.
Dessa maneira, foi após a construção do arraial de São José da Barra Longa que seu fundador, Matias Barbosa, avançou um pouco mais, dali partiu com expedição que viria a explorar as matas do Rio Doce em 1734. Já em 1735 lança posses, cultiva e povoa em terras um pouco distantes, junto a um ribeirão que deram o nome de Rio de Peixe.
Ali encontrou-se ouro; como era de grande volume, o local começou a povoar-se. Formou-se um arraial em um ambiente envolto por desbravamento, medo e insegurança.
Neste local foi construída uma capela com invocação a Santana. O nome partiu de uma lógica natural, se ali havia ouro haviam também mineradores. Santana era a protetora dos mineradores, daí a evocação à santa. A referência espacial geográfica era o Rio de Peixe. Então, o primeiro nome foi Santana do Rio de Peixe.
A capela foi criada por provisão do bispo Dom Frei João da Cruz em 28 de setembro de 1745 a pedido de Manuel Rodrigues, José Matos, José Lopes e Caetano da Costa.
Matias Barbosa faleceu em 1742. Dessa forma, a capela de Santana foi construída nas terras de sua viúva, Dona Luisa de Souza e Oliveira.
Durante muitos anos Santana do Deserto desempenhou papel muito importante para a Coroa Portuguesa, pois, funcionva como um local de proteção contra o ataque de índios nas demais vilas e arraiais. Sua posição geográfica, mais ao leste da zona aurífera, fazia com que funcionasse como uma barreira, em que, para os índios avançarem rumo a outras localidades tinham que passar primeiro por Santana, em contra-partida, era constantemente atacada. Não foi por acaso que ali se instalou uma sede do "Destacamento de Ordenanças".
No Arquivo Eclesiástico da Arquidiocese de Mariana podemos constatar óbito de várias pessoas, em Santana, ocasionado pelo ataque de índios. As vítimas não eram apenas mineradores, mas também membros da Coroa e "soldados caçadores" que morriam "violentamente às mãos dos índios".

A expressividade de Santana não se reteve ao período colonial, foi no Império que se destacou e emergiu como estrutura política. Há relatos de que: "foi autora importantíssima de um rico distrito nos primeiros anos do Império. Nesse tempo abrangia o Curato de S. Cruz do Escalvado, do qual era sede ou cabeça de distrito em (1833) mil oitocentos e trinta e treis. Sendo Juiz de Paz nesse tempo o Senhor Joaquim Justino Gomes. Nesta capela (nas outras também) residia um capelão, um deles o Padre Manuel Francisco Torres explorava ali ricas lavras de ouro". No decorrer de sua história eclesiástica pertenceu a Barra Longa no período que se estendo do surgimento até 1842; daí até 1922 pertenceu a Saúde (atual Dom Silvério); só então passou a pertencer à paróquia de Rio Doce.

Mas, o mais relevante, seja talvêz, o acontecimento que ocasionou a mundança do nome de Santana do Rio de Peixe para Santana do Deserto, logo no início da construção do arraial. A doença propulsora de uma febre começou a atingir a população. Era a febre "maleta" (uma espécie de malária). A enfermidade alcançou proporções desastrosas e começou a dizimar a população.

A gravidade dessa doença era tal que as pessoas começaram a deixar o local com esperança de se salvarem do foco endêmico.


Muitas das pessoas que fugiram morreram, e faleceram também quase todos que ficaram. O local ficou praticamente desabitado, ficou "deserto".


A esperança de vida dos que restaram, perto e longe dali, voltou-se para o sagrado, para a fé. A devoção à Santa Ana, que ficou naquele local deserto, fez com que os habitantes fizessem pedidos de alcançar uma graça, pediam pelas suas vidas. Muitas promessas se fizeram para que tal enfermidade não ocorresse mais.
Faz-se necessário pontuar que, de acordo com a tradiçao católica, a fé em Santana está associada a um poder de intercessão muito grande. Como era avó de Jesus Cristo, seus pedidos são atendidos a modo de império, e não de rogo ou súplica como os demais santos. Passado o foco endêmico; algum tempo depois, os poucos sobreviventes analisaram a catástrofe e o número de mortes, então atribuíram suas vidas a um milagre. A partir de então, o local passou a ser conhecido como Santana do Deserto.


Quanto à imagem da santa, não localizamos dados concretos sobre sua origem. O cônego Sebastião Ignácio de Moura afirma ter sido talhada na Espanha.


De certo, há outras versões pelas quais o nome mudou de Santana do Rio de Peixe para Santana do Deserto; versões estas atreladas à devoção e a fé. Há "causos' e contos, dentre eles, o de que a imagem da santa teria sido encontrada numa pedra, ou no rio. Contudo, sem desmerecer as demais versões nos ativemos a esta versão por ser a mais suceptivel de veracidade em que os dados coletados se acoplam às entrevistas realizadas.

 

Sant'ana do Deserto em 1900