Rio Doce Terra

# 26 de junho de 1921

 

José Alberto Barreto

 

Nesse dia, alguém fotografou Rio Doce e a foto, que ainda não conhecia, foi mostrada no “nosso” site.
Vi e ouvi um programa da Oprah (acho que é assim que se escreve o nome dela. Conhecem, né?), em que o tema era um médium, por nome João de Deus, residente em cidade goiana.
A entrevistadora, ela mesma cheíssima de curiosidade (acabou visitando o médium em sua cidade) tinha, como convidados, no tal programa, algumas pessoas, todas americanas, entre elas um médico,estudioso de mediunidade e outros fenômenos  para alguns “sobrenaturais”, para outros “paranormais” e, para muitas pessoas, entre as quais me incluo, leis de Deus ainda desconhecidas e/ou apenas parcialmente vislumbradas. As pessoas se diziam operadas e curadas (ou quase) pelo João de Deus, que as “acariciava” com tesouras e canivetes, cortando-as e retirando “coisas” de seus corpos doentes, sem nenhum cuidado de assepsia e sem que os “operados” sentissem dor, mesmo cortados e derramando sangue.

 



 O tal médico, que não é espírita nem nada, pesquisador neutro do assunto, perguntado, disse que viu tudo, filmou tudo, entrevistou todo mundo e... que não tinha nenhuma explicação (ainda) para o que ocorria sob seu olhar de cientista. E, por insistência da entrevistadora, que queria saber a que conclusão ele chegara com seus estudos, gravando, filmando, fotografando e documentando este e outros fenômenos semelhantes, em diversas partes do mundo, há muitos anos já, respondeu mais ou menos assim:
- Minha conclusão, por enquanto, é que nós, os seres humanos, somos muito mais misteriosos, desconhecidos, poderosos e maravilhosos do que a gente imagina...
Conto tudo isso para dizer que a visão da foto antiga de nossa terra, foto que eu ainda não conhecia, mexeu profundamente com o ser “misterioso, desconhecido, poderoso e maravilhoso” que eu também sou...


Arrepiei-me fisicamente, parece que vi mais coisas que a foto mostrava, emocionei-me, se não segurasse, teria chorado...
Velho bobão, dirão alguns. É o Alzheimer se aproximando, pensarão outros...caduquice.
Pode ser, concordo:"Tou nem aí "para opiniões alheias: já aprendi que o que pensam, dizem, até escrevem a meu respeito não é da minha conta...
Mas pensei, vendo a foto, no pó de pirlimpimpim dos moradores eternos do Sítio do Picapau Amarelo; nos poderes dos super-homens dos gibis de minha infância e adolescência, superiores a tempos e espaços; nos “he-men” e nas mulheres-maravilhas dos desenhos de meus filhos enquanto crianças;  na nave secretíssima do “Cavalo de Troia”, de J.J. Benitez, capaz de viajar e levarcrononautas através do tempo...


Rio Doce, a foto, me pareceu um palco, vazio, montado para um espetáculo a ser representado por atores, alguns dos quais eu viria a conhecer um dia...
6 de junho de 1921! A maioria dos que lá estavam já partiram... Eu ainda não havia chegado.
O casarão de meu avô, vazio,antigo e triste, me fez parecer visita a cemitério quase abandonado, aonde a gente vai mas quer sair logo. A casa onde nasci, que já não existe, (e de que gostaria muito e tenho tentado, sem sucesso,  conseguir uma foto)  também... Alguns casarões (que espero continuem de pé por mais uns duzentos ou trezentos anos, para que possa vê-los e, quem sabe, neles morar em alguma possível reencarnação ou que outro nome tenham essas “voltas” (por que não? não somos misteriosos, desconhecidos,poderosos e maravilhosos?).
Pois é, tava tudo lá, cenário montado, bonitinho, quietinho, silencioso, aparentemente sem ninguém, talvez um ou outro vulto pelas ruas de terra, poeira e barro... Os atores em suas casas, a plateia ainda viria...
                        Eu, pesquisador demicrovidas em um microscópio, como dono de uma luneta mágica, como uma criatura das viagens maravilhosas de Júlio Verne, como crononauta na nave do Benitez, com a imagem deRio Doce congelada no tempo, à disposição de meus olhos e coração curiosíssimos, enternecidos, menino bobo mas amoroso e observador.
Focalizei o casarão que meu avô construiu umdia:dentro, não consegui ver ninguém, mas minha avó com certeza lá estava sentadinha, fazendo flores que me contaram maravilhosas, artesã habilidosa que era; minha tia Nega havia se casado recentemente, estaria  tomando um cafezinho? minha tia Sinhá talvez estivesse preparando alguma aula. Já teria se casado também? A negra Maria, a carinhosa e estimada Bia de todos nós, “resto” muito amado da escravidão, labutava com certeza na cozinha, socando arroz em pilão. Em sua casa, um pouco abaixo, minha outra tia, Memela, talvez estivesse fritando pastéis. Não vi ninguém, mas tenho certeza de que, se a tivesse encontrado,Memelarepetiria o recado: “fala com sua mãe que eu gosto muito dela!”
E minha mãe?
Naquele 26 de junho de 1921, estava noiva e o casamento aconteceria em Barra Longa, no dia 22 de janeiro de 1922, menos de seis meses depois. Talvez estivesse lá, terra do noivo, onde o irmão dela era vigário, onde moravam muitos parentes e para onde se mudaria após casada. Ela e outras, sua mãe, irmãs, parentas, amigas, ajudavam a preparar o enxoval, pobrinho com certeza. Que vontade ela teria, tadinha, de poder comprar as belas peças bordadas que, como ainda hoje, já faziam na terra de meu pai, seu futuro marido.
Minha mãe, com certeza, sonhava em poder ir a Ponte Nova (era “chiquérrimo”, coisa de gente rica) comprar algumas peças para o enxoval... Não deve ter ido, tadinha...
Minha mãe...


Desliguei o computador: velho chorão não tem graça nenhuma...
Vou tentar ver na foto, muitas outras vezes, com lupa mágica nos olhos e no coração,meu avô e meus tios, o quintal e a “floresta” de jabuticabeiras dos primosNhô, Ataliba, Lourdes (minha madrinha), Loca, Menininha e Cristóvão; dona Cecília e seu quintal cheinho de galinhas aguardando embarque para os compradores; donaMiquelina e seu marido Odorico(meu padrinho); a escola; a estação;  a igreja;  o padre Macário;  a catequista Tancinha; “sô” Salvador e dona Pepina;dona Hermínia e “sô” João Paulo;quem mais?
 Não havia uma Lana, Palermo também?



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