Rio Doce Terra

# Zezinho das Pernambucanas

Juninho Lobo

José de Assis é um pacato cidadão nascido na zona rural de Carlos chagas, no vale do Mucuri, em Minas Gerais. Seus pais eram pessoas humildes e analfabetas. Zé, filho caçula do casal, também analfabeto, foi para São Paulo tentar a vida na cidade grande no início dos anos 50. Chegando lá, conseguiu vários empregos, sendo que o último e mais duradouro, foi o de faxineiro nas Casas Pernambucanas. Trabalhou por lá uns 20 anos, até aposentar-se, onde herdou o apelido de Zezinhos das Pernambucanas.  Depois voltou para sua cidade natal, onde fixou residência. Por ser pessoa muito alegre e comunicativa, o candidato a prefeito da cidade e amigo de infância do Zezinho , convidou-o para concorrer a vereador no município.  Zezinho pensou e acabou aceitando o desafio.  Ganhou! Foi eleito, inclusive se  tornou-se  presidente da câmara. O coitado mal, mal sabia escrever seu nome, mas tinha boas intenções. Aprontava sempre : interrompia o prefeito quando em discurso, dava coletiva na rádio, afinal fazia coisas que o povão queria e gostava , mas era um mega-trapalhão! Na época , existia uma antiga lei na cidade que beneficiava os vereadores com a Bolsa-Natal, recurso este de um salário mínimo destinado aos membros do legislativo para a aquisição de presentes aos  filhos menores de 15 anos de idade. O Zezinho, mesmo sendo vereador e tendo filhos na faixa etária beneficiada, criou uma medida provisória revogando essa.

Em reunião extraordinária, com a presença de aproximadamente 200 munícipes, a emenda foi aprovada e a lei revogada.  Zezinho saiu da reunião, aplaudido de pé pela boa ação de cidadão que coordenara, porém não tinha nenhuma noção do tamanho da “rata” e o que aconteceria em breve futuro.
Fortificado pelos aplausos do dia da revogação da Bolsa-Natal, o pobre do Zé , estava se achando o tal, até superior ao prefeito.  Mas, numa breve ocasião, acabou acontecendo o inevitável. Numa nova seção da Câmara, quatro vereadores, inclusive o Zezinho, apresentaram um projeto de lei para a construção de um novo reservatório de água para a cidade.  O motivo foi que a população aumentava a cada dia e a antiga caixa d´água já estava pequena demais para dar conta de abastecer as casas da comunidade. O projeto inicial era a canalização da água da caixa antiga até à nova, ou seja, o velho reservatório não ia ser desativado e sim ser usado como reserva do novo. Porém, Zezinho propôs a construção do tal reservatório num local que ficava a 200m da caixa antiga e a quatro metros  mais elevado  do já existente. O engenheiro, Dr. Mauro, alegou que essa construção seria antieconômica, pois haveria a necessidade de acoplar uma estação de bombas para recalcar a água a um ponto mais alto e o preço dos equipamentos encareceria muito o projeto .  Zezinho não se contendo, criticara de certa forma os conhecimentos do engenheiro, ao afirmar que a água chegaria ao novo reservatório sem ser bombeada.

    _ Mas como, Sr. José? Eu tenho o levantamento topográfico do terreno e o local que o senhor propôs está 4 metros acima da atual caixa, disse Dr. Mauro.

    _ A água irá pelo cano. A platéia desabara em risos...

    _ Sr. Zezinho, eu sei que a água vai pelo cano, mas por ser um local mais alto, a água não chegará à caixa nova sem ser bombeada, explicou o engenheiro.

    _ Mas com boa vontade ela vai sim, insistiu Zezinho.  Mais risos...

O engenheiro já nem sabia mais o que fazer ou dizer ; se ria se chorava ou se ia embora.  Pensativo, ficou de pé e dirigiu as seguintes palavras ao simplório homem:  

_Sr. Zé, o senhor ocupa um cargo público e deve administrar da melhor maneira possível o dinheiro do povo. A água não vai chegar ao novo ponto, pois lá é mais alto que o ponto da caixa antiga. Será possível que o senhor, um homem tão querido nesta cidade não pode entender isso?  Assim você está questionando as leis da natureza, a lei da gravitação universal e a “Lei de Newton”!

 Então, lentamente, e com bastante frieza e veemência, Zezinho levantou-se e desferiu as seguintes palavras para o Dr. Engenheiro:

_Dr. Mauro, não se preocupe, se essa lei é de Newton, nós podemos revogá-la com facilidade, eu garanto, dou-lhe minha palavra de honra!  Inclusive fizemos o mesmo no início do ano com a lei da Bolsa-Natal, que era muito mais antiga. Além do mais, Newton Cardoso já foi cana, hoje é bagaço, não manda mais nada neste Estado. Essa foi demais!  Ninguém ficou sem rir por uns 3 minutos ininterruptamente.

Zezinho ficou um tanto quanto desconfiado, pois as gargalhadas foram imorais e prolongadas. Então, o vereador trapalhão virando para seu filho e assessor para assuntos aleatórios, cochichou em seus ouvidos:  Por que será que esse povinho está  rindo assim?

E seu filho respondeu:

_ Ah! Pai.  Desconfio que  essa tal lei de Newton deve ser lei Federal e bem mais  difícil de ser revogada.

_ Será filho?
 

*Rata = Gafe