Rio Doce Terra

# Caroneiros , "o que a vida começa , a morte continua"

Luiz Raimundo


Semanas atrás , para recarregar as baterias e assim agüentar os trancos do fiaal de ano , tirei uns dias de férias e fui para Juiz de Fora , onde tenho inúmeros e excelentes amigos . Era sexta-feira , 9 de novembro .

A viagem de ida foi tranqüila ; o tempo (nem sol , nem chuva) ,apesar de nublado , com uma ou outra nuvem mais carregada , ordenadamente distribuída no céu , propiciava uma viagem sem transtorno , com pouco movimento na rodovia .

Viajar sozinho , às vezes é bom .Liga-se o som  , mas quase sempre nem damos conta da melodia que rola .O pensamento , embalado subliminarmente pela harmonia da música , viaja mais do que a gente : auto-cobranças , projetos , recordações ...

E assim eu seguia , tranqüilamente , feliz , ansioso para chegar .Normalmente não gosto de dar carona na estrada . Todos sabemos o quanto isso pode ser perigoso. Abro exceção quando se trata de estudantes ( e a gente os reconhece com facilidade), com aquelas placas indicando o destino que pretendem .

Naquele dia  , às 14H17min , ao passar pelo segundo trevo de Rio Pomba , deparei-me com um casal jovem pedindo carona . Quando me dei conta  , já estava parado no acostamento , a janela do carro aberta , e o rapaz , educadamente , querendo saber se podiam embarcar .

O moço , alto , corpo atlético , cabelos loiros meio encaracolados , olhos muito azuis , a pele muito branca , quase transparente , deixando à mostra o azul de suas veias do braço , apresentou-se e apresentou sua companheira – esposa , na verdade . Ele Günther Heichenback , era descendente de alemães ; ela , Maria Goreth , bem brasileira , era morena , bonita , um metro e sessenta de estatura (no máximo) , cabelos muito negros e batendo nos ombros , e uns olhos muito brilhantes e castanhos .Estranhou-me a sua maquiagem , com pálpebras bem escuras . Ambos eram professores da Escola Técnica Federal de Agricultura de Rio Pomba .

Eram os meus  , agora , companheiros de viagem , muito simpáticos e falantes ; inteligentes , conversavam com desenvoltura sobre qualquer assunto .

Conversa vai  , conversa vem , acabaram por me contar o propósito da viagem : Há oito anos se envolveram num acidente de carro naquela rodovia . Um caminhão desgovernado , com um motorista completamente embriagado , bateu no  carro deles com violência extrema  .

Depois daquele acidente  , todos os anos , e naquele dia era aniversário do acidente- se é que podemos falar assim , eles se dirigiam ao local para orar .

A viagem seguia seu curso, até que ao chegar na marca do quilômetro 69 , poucos minutos antes de chegar no bairro Grama , em Juiz de Fora ,pediram-me que parasse . à margem da rodovia naquele ponto , à direita de quem vai , há do lado de dentro da cerca uma pequena casinha , e à frente dela , uma enorme cruz de cimento ,erigida pelos donos da propriedade , que , segundo meus caroneiros ,foi quem deu os primeiros socorros no dia do fato . O caminhão  , contaram-me , quase jogou o carro dentro da casa .

Ali desceram. Como não fizeram na chegada  , estenderam-me a mão num cumprimento de agradecimento . Ao tocar suas mãos senti um forte arrepio  . Ambos tinham as mãos frias como gelo  . Assustei-me  , mas depois pensei ter sido por conta do ar refrigerado do carro , que estava no máximo , mercê do calor daquela tarde . Eram 15h02min. Não sei porque  , mas registrei o horário automaticamente .

Segui minha jornada ,e rapidinho já me ocupava de outros pensamentos e de maldizer os indefectíveis quebra-molas da chegada da “Manchester mineira” .

Mais tarde  , chegando à casa que me hospedaria nababescamente nos dias seguintes , recolhi  minha bagagem e deparei-me com um exemplar do jornal Diário de Rio Pomba no banco traseiro do carro .Os meus parceiros eventuais devem tê-lo esquecido , pensei , e resolvi dar uma folheada no mesmo . Tenho por hábito  , há muito tempo ,de , ao dar uma olhadela em jornais e revistas , começar pelo final . Estranhei  , de cara , a data da edição : 10 de Novembro de 1999 ...

Ao virar a última folha , na página frontal , estava a foto dos meus dois caroneiros . A manchete  , em letras garrafais , bambeou minhas pernas ,ativou minha sudorese e embargou a minha voz : 

MORTE DE PROFESSORES CONSTERNA TODA A CIDADE-RIO POMBA ESTÁ DE LUTO .Abaixo das fotos de Günther e Maria Goreth , a matéria dizia tudo que eu já sabia .

Naquela mesma noite fui a igreja de São Matheus e rezei pelas almas dos dois.

Believe it ,or not !