Rio Doce Terra

# Dança comigo

 

Luiz Raimundo     

A noite de sábado corria tranqüila na zona boêmia . Todas as casas lotadas : Mosquito , Galocha , Doía , Casa da mãe...Mas era no Galocha que o bicho pegava .Lalinho e seu conjunto animava os freqüentadores com a bela música .Os sucessos que tocavam no rádio eram executados com maestria pelos músicos , todos de primeira linha .
      Os homens, muito elegantes , se revezavam em todo tipo de dança : bolero , cha-cha-cha , samba-canção ,samba. Se tocassem o hino nacional , podem ter certeza que alguém tiraria alguém para dançar .  Era proibido ficar só sentado , bebendo . Fazia parte da “corte” animar as meninas antes do “vamos ver”.
       Ali havia respeito. Se alguma mulher estava acompanhada , ela era intocável. Não importava se ela estava com o “seu coronel” ou com algum visitante fortuito . Tinha dono , ninguém tascava . E assim , as pessoas varavam as madrugadas num clima de alegria , amor e respeito .
       Mas naquela noite , ninguém sabia , iria terminar diferente .Muito diferente  .
       Por volta de uma hora da madrugada , o delegado da época , Dr. Pandolfo resolveu dar uma batida preventiva . Não era atrás de droga , não .Naqueles tempos não se falava e muito menos se usava este perverso mal de nosso tempo  . Buscava a polícia , armas , pois num ambiente onde tinha mulher e bebida , vez por outra podia dar bode . O delegado , muito bravo (ele é aquele de quem se dizia: azedo e mofo , é com Dr. Pandolfo !) , ele não queria saber de homicídio em “sua cidade” . Se houvesse confusão ,que fosse resolvida na base do tapa e do rabo-de-arraia .
        Visitou todas as casas , não aprendeu uma arma sequer .Dizem as más línguas , que na verdade ele estava é à procura de um “amigo sírio descendente”.
         Ao chegar ao estabelecimento do Galocha , a festa estava animada . Muita gente dançando ,muita gente bebericando , muita gente beijando , amando .
         No centro da pista , de terno branco , de linho tropical 120 ,gravata bordô , sapatos vermelho e branco , bailava com garbo o Lalado Brandachopp . Nos seus braços , Marília , linda morena , olhos agateados , cabelos cor de azeviche , lisos , batendo abaixo dos ombros e esvoaçando de um lado para outro , ao ritmo da canção .
          Quando viu o Lalado Brandachopp , os olhos do Dr. Pandolfo brilharam com um brilho de desejo e paixão . Imediatamente ,com sua voz tonitruante mandou parar a música . Todo mundo pra fora , disse ele , e em seguida completando :Só os homens . As mulheres fiquem em suas mesas . Quando Lalado ia passando pela apertada porta da saída ,Dr. Pandolfo pôs as mãos em seu peito e falou , autoritário : - O senhor fica!
           Desfalcado de homens ficou o recinto . Fechou a porta e ,já com um tom mais afável , dirigiu-se a Lalinho : -Moço , toque um tango . El dia que me quieres.
           A música portenha preencheu o ambiente que se encontrava à meia-luz . Lalado , sentado numa mesa de canto , não sabia por que teve que permanecer no salão . Não por muito tempo , pois o Dr. Pandolfo , com um ar impositivo , bastante convincente , estendeu-lhe a mão dizendo : dança comigo !
           E “dançaram tanta dança , que toda a vizinhança se iluminou.”
           Quem viu , pode confirmar .Não é , Nonô?